sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Feliz Natal


Estréias na direção sempre são fatos que podem refletir numa tragédia ou, simplesmente, num momento de glória. E a pressão aumenta ainda mais quando o artista que se aventura pela primeira vez na direção é um excepcional ator e, desta forma, todos esperam que ele seja tão bom atrás quanto na frente das câmeras. O Que é Isso, Companheiro?, O Cheiro do Ralo, Meu Nome Não é Johnny, Lavoura Arcaica e O Auto da Compadecida provam que Selton Mello é um dos melhores atores do cinema nacional e, sendo absolutamente direto, Feliz Natal prova que ele também é um diretor incrível.

Juntamente com Marcelo Vindicatto, Selton escreve um roteiro pesado e que dificilmente passará por momentos “felizes para sempre”. O filme conta a história de Caio (Leonardo Medeiros), um homem de 40 anos que tem um ferro-velho no interior. Ele possui uma companheira e uma ocupação constante, mas no passado levou uma vida de grande irresponsabilidade, da qual saiu vivo por sorte. Decide, pois, depois de muito tempo, retornar para a capital e visitar a família no Natal. Espera que tudo esteja na mais perfeita ordem, mas se depara com o irmão, Théo (Paulo Guarnieri), praticamente terminando o casamento com Fabi (Graziella Moretto), sua mãe (Darlene Glória) vive à base de bebidas alcoólicas e psicotrópicos, e seu pai (Lúcio Mauro) vive com uma mulher extremamente mais nova e de aparência duvidosa. O que se percebe é que todos os membros da família mantêm uma certa distância de Caio, principalmente seu pai que, inclusive, parece detestá-lo. O que também podemos entender é que toda essa revolta contra o personagem de Leonardo, é decorrente de algo que ele fez no passado e muito da sua própria vida é ministrada por esse fato. A vida de todos mudará com a volta de Caio, enquanto este somente quer descobrir quem realmente é.

Não pensem vocês que, no fim, todo vai se encaixar de forma linda e maravilhosa. O filme não nos propõe um final feliz aparente e, diferentemente do final aberto de Linha de Passe, temos um desfecho bem amarrado e com uma dose sensacional de realismo. Selton procurou desenvolver cada personagem como sendo um espetáculo estilo monólogo, ou seja, como se houvesse apenas um personagem em cena e sua caracterização tivesse que ser o mais minunciosa possível. Além disso, é impressionante a quantidade de planos-sequência que existem neste fita. Um, em especial, tem quase quinze minutos de duração e é um dos ápices do filme. A trilha sonora lembra muito as composições de Gustavo Santaolalla utilizando instrumentos de cordas suaves, mas em tons pesados. Num dado momento, quando a angústia dos personagens chega ao auge, a composição também atinge seu ápice e nos arrepia. É difícil eu imaginar alguém quase que inexperiente editando este material como Selton o fez. Cada corte, cada tomada e cada plano foram bolados perfeitamente, inserindo ao filme um pouco de complexidade. Lula Carvalho (responsável pelas fotografias de Tropa de Elite e Fabricando Tom Zé, por exemplo), mais uma vez faz algo magistral. Entretanto, acho que Mello acabou prejudicando o trabalho de Lula. O próprio estreante afirmou que se inspirou muito em John Cassavetes (Uma Mulher Sob Influência, Faces) e seus filmes visualmente deslumbrantes e altamente estilísticos. A fotografia, então, é pesada, e prima por cores fortes e vários dos ângulos são exagerados demais. Acabou que, infelizmente, mesmo Selton tendo a boa intenção em seguir o estilo de Cassavetes, cometeu certos exageros estilísticos e estes são os únicos defeitos da fita.

Preferi guardar o último parágrafo para comentar sobre o elenco. Leonardo Medeiros é um ator muito, mas muito notável. Exterioriza todo o medo, cansaço e confusão sentidos por Caio. Mesmo estando absurdamente bem, continuo achando que seu melhor trabalho no cinema está em Não por Acaso. Depois de muitos anos sumida, digo que temos a volta triunfal da musa Darlene Glória (a qual já deu show em Terra em Transe e Toda Nudez Será Castigada) . Que espetacular a sua atuação! Ouso em dizer que já está entre os melhores trabalhos coadjuvantes que vi no cinema brasileiro. Lúcio Mauro, conhecido por papéis cômicos no sofrível Zorra Total, por exemplo, mostra sua veia dramática e também convence. Sem falar no casal em crise, personificado por Paulo Guarnieri e a minha queridíssima Graziella Moretto: perfeitos. Ele é um “pau mandado” na vida e ela já não agüenta mais o peso de dias cada vez mais cansativos e piores. Um elenco de peso, conduzido por um grande ator que, hoje, eu digo que já é uma grande promessa como diretor no quadro nacional. Feliz Natal, do início ao fim, mostra com naturalidade a vida de pessoas infelizes e termina não sendo pessimista, mas sim realista.


Nota: 9,0


Feliz Natal; Brasil, 2008; DRAMA; de Selton Mello; Com: Leonardo Medeiros, Darlene Glória, Lúcio Mauro, Paulo Guarnieri, Graziella Moretto.

9 comentários:

cinevita disse...

Fiquei entusiasmado pelos seus comentários. Mello é ótimo ator, mas não sabia que ele tivesse se saído tão bem por trás das câmeras. Pena que a distruibuição de filmes nacionais seja tão porca.

Ciao!

Johnny Strangelove disse...

A cada dia que se passa percebo que o brasil deixou de mandar um filme foda para o Oscar ... shame ... SHAMEEEEE!

Abraços

Mayara Bastos disse...

Olá, Kau! Tdo bem?

Ouvi maravilhas sobre este filme! Mas, infelizmente, aqui ele sumiu! rsrs. Infelizmente, vai ficar para o DVD!

Fique bem, beijos!! ;)

Kau disse...

Wally, ele só peca por ter se inspirada tanto em Cassavetes. Mas, de resto, é excelente a direção. Abraços!

João, nem me fale. Um filme poderoso, sem dúvidas, e que faria sucesso por lá. Abraços!

Mayara, tudo bem e vc?
Bom, o filme é belíssimo. Espero que ele volte a ter distribuição por aí. Beijos!

Sérgio Déda disse...

Selton Mello sempre foi fantástico como ator e agora parece seguir um bom caminho como diretor... uma das melhores peças do nosso cinema sem dúvidas...

Vinícius P. disse...

Puxa, é uma pena que esse filme não tenha chegado por aqui, afinal estou super curioso para ver a estréia do Selton Mello como diretor de longas - ainda mais depois de seus comentários. Abraço!

Kau disse...

Sergio, exatamente!

Vinícius, espero que chegue logo por aí. Vale a pena dar uma conferida. Abraços!

Hugo disse...

A história e as interpretação são ótimas, mas tb considero que Selton exagerou nos closes e nos movimentos de câmera, isso acabou cansando um pouco. Apenas o silêncio e os olhares de muitas sequências já seriam suficientes para passar a angústia dos personagens.

Abraço

Kau disse...

Hugo, mais ainda que isso, eu acho que o exagero nas cores prejudicou mais. Entretanto, não faz com que o filme não seja incrível, pelo menos pra mim. Abraços