quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Violência Gratuita (2007)


Em Onde os Fracos Não Têm Vez, os irmãos Coen apresentam um conto sobre as raízes da violência e chegam a personificá-la no personagem de Javier Bardem. Pesadelo Americano também utiliza a violência como pauta, mas ainda temos o aparecimento de um final mais positivo. Stanley Kubrick ousou em sua obra-prima Laranja Mecânica abordando o mesmo tema, mas de forma ainda mais impressionante, crua e fria não só por meio de um belo roteiro, mas sim por uma técnica de cores fantástica. Não assisti à primeira versão de Violência Gratuita, mas a sua refilmagem, a meu ver, é incrível. Além de um roteiro tão ousado e complicado quanto os dos demais filmes citados - quando me refiro à abordagem sobre violência; o diretor Michael Haneke, juntamente com o diretor de arte Hinju Kim, chegou a fazer referência diversas vezes a A Clockwork Orange.

O casal Ann (Naomi Watts) e George (Tim Roth), juntamente com o filho Georgie (Devon Gearhart), resolvem começar as férias numa casa à beira de um lado e têm planos de se divertirem muito. Mas o que era para ser perfeito na vida de uma família se tornará um verdadeiro caos em questão de segundos, quando dois estranhos, Paul (Michael Pitt) e Peter (Brady Corbet), invadem a casa e sujeitam a família a inimagináveis situações, todas absurdamente inconvenientes e violentas. Os dois jovens são evidentemente perturbados e durante todo o filme explicam com vários argumentos o porquê estão fazendo aquilo – todos embasados em insanidade. Michael Haneke abre as portas e deixa que o realismo entre e permaneça no seu thriller, de modo que nos sintamos tão atingidos pelas frases dos garotos quanto o próprio casal. Paul e Peter jogam com eles próprios em algumas passagens e chegam a questionar a existência violência no mundo. Em dois momentos, de maneira genial, Paul fala com o espectador, bolando um jogo de perguntas e respostas. O desfecho não poderia ser mais pessimista, direto e, paradoxalmente, fenomenal.

A direção de Haneke, pra mim, é de uma força máxima. Alguns de seus planos são obras-primas, como o que precede o desfecho do filme: uma sequência impressionante e assustadora de quase vinte minutos. O roteiro mostra que violência e insanidade são separadas, na maioria das vezes, por uma linha muito tênue e que entre elas, estão as vítimas. Como disse na introdução, temos uma menção frequente ao clássico de Kubrick, Laranja Mecânica. As cores utilizadas pelo diretor de arte e, principalmente, a ironia e vestimentas dos dois garotos, lembram muito o filme. Não sei por que, mas isso não me agrada. Naomi Watts é uma das minhas atrizes preferidas e gosto muito do seu papel aqui, mesmo que aquém da atuação de sua carreira em 21 Gramas. Tim Roth e o menininho Devon Gearhart estão corretos, mas os maiores elogios vão para os vilões Michael Pitt e Brady Corbet: são quase como caricaturas do mal. Insanos, reais, desumanos; duas grandes composições. A fita me deixou sem respirar por diversas vezes e gostaria muito de encher o texto de spoiler para citá-las. Se algum de vocês quiser que eu exemplifique essas cenas, mande um e-mail para o contato que está aí ao lado ou sei lá, manda sinal de fumaça!


Nota: 9,0


Funny Games U.S; EUA/Reino Unido/França, 2007; SUSPENSE; de Michael Haneke; Com: Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt, Brady Corbet, Devon Gearhart.

14 comentários:

PEDRO TAVARES disse...

Eu não assisti esse, mas gosto muito da primeira versão do filme, de 97, feita pelo próprio Haneke.

Matheus Pannebecker disse...

Kau, das críticas dos blogueiros sobre esse filme, a sua foi o que melhor representou o que eu acho de "Violência Gratuita". O filme me deixou muito tenso e eu acho que essa é a melhor caracterísitica do longa - conseguir deixar as pessoas à flor da pele. Ao menos eu senti isso =P

cinefilapornatureza disse...

Kau, acho que esta foi a melhor opinião que li sobre o remake de "Violência Gratuita". Ainda não conferi este filme, mas tenho a curiosidade de ver o longa original, até mesmo para tentar entender o por quê da necessidade do Haneke de revisitar a sua obra.

Vinícius P. disse...

Eu detestei o filme como comentei outra vez, apesar de não ter nada contra o cinema do Haneke. Acho que eu prefiro tramas que tem algo mais "bonito" a dizer (o que é um argumento completamente falho, sei). Abs!

Mayara Bastos disse...

Olá, Kau! Tudo bem?

Estou ovindo algumas maravilhas sobre este filme, que ainda não vi. Providenciarei logo para conferí-lo.

Beijos!

cinevita disse...

Eu vi ambas versões no mês passado. O primeiro é soberbo, excelente e, de certa forma, para quem assistir à refilmagem antes dele, terá o mesmo efeito. Eu, já por ter assistido ao anterior, não senti tanto efeito desta refilmagem, que ainda assim não deixa de ser ótima. E ainda vale notar uma Naomi Watts magistral!

Nota 9.0 para o original
Nota 8.0 para a refilmagem

Ciao!

Lucas Oliveira disse...

eu tive uma percepção um pouco diferente do filme. nao vi a primeira versão, apenas essa de 2007. eu costumo dizer que o trailer de funny games é fenomenal: consegue vender o produtor mt bem, gera expectativas altíssimas, mas frustra. achei q a historia seria mais interessante e o desenvolvimento da trama tb. e eu odiei os planos em que o há dialogos de pitt proferidos diretos pra câmera, como se tentasse estabelecer um contato direto c o espectador. adoro suspenses psicologicos, mas achei esse mto cansativo. e de fato, naomi watts é um excelente atriz, pra mim uma das melhores de sua geracao. so discordo de vc qdo a seu melhor papel q definitivamente é em "cidade dos sonhos" do lynch, onde ela esbanja talento e técnica.

receioderemorso disse...

Kau, você pode até ter gostado do filme, mas dizer que seu roteiro é "tão ousado e complicado" como o de Laranja Mecânica foi um exagero dos grandes. Laranja vai muito, muito além do que falar de violência, toca em assuntos bem mais delicados, trabalha a base da natureza humana e está em outro patamar que o de Violência Gratuita. Right-right?
Bem, como já disse, não gostei do filme. Gosto do primeiro ato, tem um clima legal, tenso e tudo mais, mas quando o "jogo" começa de verdade acho muito fraco. Não senti absolutamente nada. Fraco, muito fraco.

[]s!
jeff

Kau Oliveira disse...

Pedro, exatamente. O primeiro é do Haneke, mas não vi.

Matt, fiquei mais chocado que tenso rsrsrsrsrs.

Kami, eu acho que você vai odiar este filme =/ Sério mesmo.

Vinícius, fiz o texto justamente para expôr o porquê da nota. Sabia que vc detesta, hahahahaha. Li seu texto no seu blog e entendo a sua raiva, mesmo discordando. Abraços!

Mayara, tudo bem e tu?! O filme tem um ótimo material de suspense. Vale para deixar tenso o tempo todo e também chocado. Beijos!

Wally, eu preciso urgentemente encontrar a primeira versão. Inclusive eu deveria tê-la assistido antes... Abraços!

Lucas, eu AMO quando o roteiro proporciona proximidade entre personagem e espectador. Além disse, os planos utilizados por Haneke são magníficos. SPOILER: vide a cena em que um dos meninos mata o filho do casal e nem somos guiados pela situação, mas sim estamos na cozinha, vendo o outro procurar comida. Isso denota que, para eles, violência é algo tão natural quanto comer. Pra mim, um ótimo exemplar! Naomi, como eu disse, tem o papel de sua vida em 21 Gramas e daria o Oscar pra ela. Antes até da sua personagem na obra-prima Cidade dos Sonhos, fico com seu papel no independente Ellie Parker.

Jeff, eu corrigi a frase. Me expressei mal, pois quis dizer que no que diz respeito à violência, o roteiro de Funny Games U.S. é tão ousado quanto os demais. Não comparei os roteiros completos, rs. Óbvio que há uma GRANDE superioridade no escrito de Laranja Mecânica. Abraços!

Romeika disse...

Dificil esquecer este filme! Eu nem amei nem odiei (ao contrario da maioria), fiquei no meio. Tem grandes momentos e outros nem tanto. A tensao eh crescente, aih chega um climax q nos faz respirar aliviados por uns 5 segundos, apenas pra nos deixar frustrados de raiva! (a cena do controle remoto..). Eu detestei aquela cena, mas li uma justificativa pra ela no forum do imdb, q realmente faz sentido..

Soh acho estranho o diretor querer refilmar um filme q ja foi feito, sabe? Nao vi o original, apenas algumas passagens, e eh EXATAMENTE a mesma coisa..talvez as atuacoes sigam linhas diferentes. Vc nao gostou muito da Naomi, Kau? Achei uma das grandes atuacoes do ano passado. Bjs!

Kau Oliveira disse...

Romeika, como eu disse é uma ótima atuação. Só não é excepcional como em 21 Gramas, sabe?! E ESQUECI DE CITAR A CENA NO CONTROLE!!!!!!!!!!! Imperdoável... já que acho um dos grandes momentos do filme, rsrsrs. Beijos!

Ygor Moretti Fiorante disse...

òtimo trabalho de Haneke, pertubardor tanto pela realidade crua estampada como também por um certo ar ludico e sádico.

Mas acho ainda Cache seu maior trabalho, outra grandes experiencia!!!

Abraço e te mais!!!

Kau Oliveira disse...

Ygor, obrigado pela visita. Concordo com o que disse sobre Funny Games U.S. mas discordo sobre Caché; acho este filme bem discutível. Abraços!

THIAGO PAULO disse...

Cara, esse filme me deixou com uma raiva. Não que tenha odiado o filme, mais aqueles elemantos, como por exemplo, a cena do controle remoto, me deixou bobo. Fiquei com medo de encontrar alguem como os dois loucos, se é que podem sr chamdos assim, por ai. Eu hein?!

Abraços...