terça-feira, 17 de março de 2009

Especial PTA: Boogie Nights - Prazer Sem Limites

No telefilme Gia – Fama e Destruição nos é exposto o auge e a decadência da carreira da primeira grande top model mundial, Gia Carangi. Em Johnny e June somos apresentados também ao auge e declínio de alguém, neste caso do cantor Johnny Cash. O que os dois personagens principais dos filmes citados têm em comum?! Ambos chegaram ao fundo do poço não só por ações mundanas, mas sim por problemas sérios com drogas. Pode-se dizer que o mesmo será observado em Boogie Nights – Prazer Sem Limites, mas o tema vai muito mais além, pois enfoca o que cada pessoa faz para alcançar a fama, e o fundo do poço parece ser inerente à vida dos personagens. Então, como esta fita de Paul Thomas Anderson coloca a fama e suas conseqüências em evidencia, conseguimos enxergar, mais uma vez, semelhanças com as outras duas películas citadas.

O roteiro de Boogie Nights, escrito pelo próprio PTA, trás a tona, mais uma vez, uma história multinuclear, ou seja, com vários personagens se entrelaçando o tempo todo. Apesar de ser menos complexo que Magnólia, o filme tem um grau de dificuldade em sua exposição, uma vez que nos apresenta o interessante mundo acerca da indústria pornô cinematográfica. Na verdade, Paul opta por ambientar o filme no fim dos anos 70 e começo dos 80, onde os “filmes para adultos” tiveram uma ascensão incrível tanto em termos de qualidade, quanto em termos de público alvo. Mark Wahlberg interpreta Eddie, um garoto que sabe que tem um dom, mas não consegue encontrar seu lugar ao sol, ate que é descoberto pelo cineasta Jack Horner (Burt Reynolds), o qual é conhecidíssimo no ramo pornográfico. Não demora muito e Eddie já está muito a vontade neste ambiente diferente do convencional e nele conhece pessoas muito interessantes como Amber (Julianne Moore), que é atriz pornô mas tem um segredo difícil em seu coração; Brandy também é atriz, mas sofre discriminações na escola por isso; Antony (John C. Reilly), é ator profissional no ramo e Buck (Don Cheadle) que, aparentemente, segue a mesma carreira mas tem sonhos mais abrangentes; Scotty (Philip Seymour Hoffman) que trabalha na parte da produção e se vê apaixonado pelo mais novo astro da companhia, Dirk Diggler (o nome artístico escolhido por Eddie).

O texto divaga por esse mundo peculiar e, por oras, freak e vai mostrando a ascensão de Dirk até chegar ao seu grande auge. Mas como é comum que aconteça – e particularmente não sei dizer o porquê – tudo que sobe um dia deve cair. Dirk vira um viciado em cocaína e vê seu dom cair por terra e, com isso, acaba brigando com Jack e deixando a produtora. O fundo do poço estava preparado para ele, mas um desfecho um tanto quanto paradoxal esta reservado para todos. O mais interessante na direção de Anderson é que, mesmo com o tema, ele não deixa que seu filme tome um caminho pervertido e nem vulgar. É uma direção muito cautelos e esta é uma característica indelével na carreira deste diretor. Ele insere artifícios de câmera que, mesmo vistos novamente em Magnólia, continuam funcionando muito bem. O melhor deles, sem dúvidas, são os longos e maravilhosos travellings, ou seja, tomadas nas quais Paul segue um dado personagem com a câmera, sem cortes, até onde ele for e, por algumas vezes, chega a “trocar” de alvo, recomeçando o ciclo. No mais, mostra mais uma vez a impressionante capacidade de conduzir um elenco como mostrou em todos os filmes, até agora. Mark é ótimo no papel de ator pornô, assim como John C. Reilly. Philip, como sempre, está brilhante e o mesmo posso dizer da genial composição de Julianne Moore. A técnica é muito boa, mas confesso que esperava muito mais de Robert Elswit e sua fotografia. Os figurinos, entretanto, são um charme e mereciam ser levados mais em consideração (Mark Bridges, subestimado figurinista de todos os filmes de PTA).

Mesmo tangendo a esfera do cinema pornográfico, a fita não fica só por aí. Apesar de apresentar alguns conflitos recorrentes na vida de alguns personagens – os quais vão “além ofício” – acredito que o filme é longo demais para o que propõe. Como eu comentei, o desfecho é paradoxal e não vejo outro adjetivo para ele. Ao mesmo tempo em que gostei bastante do final de alguns personagens, fiquei insatisfeito com os de outros, por serem decorrentes de situações um pouco absurdas (o caso de Buck) ou ainda clichês (como o final do próprio Dirk). A partir do desfecho nós podemos concluir que para se encaixar na vida, precisamos passar dos limites e passar por maus bocados; só assim aprenderemos. Muitas vezes podemos tirar proveito da desgraça dos outros e mesmo isso sendo muito imoral, acaba sendo pautado na película. Assim como os demais filmes de Paul Thomas Anderson, este “Prazer Sem Limites” tem complexidades incrustadas em seu cerne, mesmo que não muito difíceis. Mais um ótimo filme de um extraordinário diretor. Aguardem a próxima resenha do especial: falarei sobre o diferente Embriagado de Amor.




Nota: 8,5



Boogie Nights; EUA, 1997; DRAMA; de Paul Thomas Anderson; Com: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Luis Guzmán, Julianne Moore, Don Cheadle, Philip Seymour Hoffman, Heather Graham, Thomas Jane, William H. Macy, John C. Reilly.

15 comentários:

Otavio Almeida disse...

Acho um bom filme... Talvez um pouco longo. E acho que PTA acertou mesmo, de forma irretocável, em SANGUE NEGRO.

Mas li uma entrevista do Steven Spielberg, que divulgava AMISTAD na época. Ele falou de uma nova geração que estava surgindo. Lembro dele ter dito: "Sei que o diretor de BOOGIE NIGHTS ainda vai dar o que falar. Ele é muito bom."

Abs!

THIAGO PAULO disse...

Olá Kauê, me lembro de ter assistido a esse filme no Inter Cine, e gostei muito, mais na época, nem entendia muito, então, o fato de ser dirido por PTA não importava muito. Oque é diferente agora!

Só tenho uma dúvida: Esse filme foi feito antes ou depois magnólia?

Há, assisti Em Nome do Pai, muito bom...Daniel-Day-Lewis está ótimo.

Abraços...

Vulgo Dudu disse...

Sensacional! Adoro esse filme. O elenco todo está incrível e PTA já mostrava que ia dar o que falar. Aquele desfecho beira o memorável.

Abs!

Fifeco disse...

É outro filme do PTA que ainda não vi. Estou mesmo em falta. mas é algo a reparar brevemente.

Abraço. Bom texto :p

- cleber . disse...

Poxa Kau, esperava uma nota bem maior da sua parte !
Apesar de eu não ter visto ainda ... Espero algo tão bom quanto Magnólia !


Abraço!

Kamila disse...

Adoro "Boogie Nights". Acho um belíssimo trabalho do PT Anderson. O filme pode se passar na temática da indústria pornô do San Fernando Valley, mas o interessante é que o longa fala sobre as pessoas que faziam esse mercado funcionar. Além disso, AMO a atuação da Julianne Moore!

Alex Gonçalves disse...

Kau, eu concordo com você sobre o que é mencionado em questão da vulgaridade que poderia existir com o tema que P. T. A. narra aqui. Apesar de ser exclusivamente um filme sobre a indústria pornô tudo é conduzido com muita elegância. Mas eu acho um bom filme, não muito mais que isto. Não foi a duração que me incomodou, talvez tenha sido um outro motivo pelo qual ainda não compreendi muito bem, rs. A minha cena predileta é aquela com Thomas Jane e o garoto das bombinhas, ehehehehehe...

Ibertson Medeiros disse...

Ia comprar esse filme, mas estava indisponível. Que droga.
Quero muito ver essa obra tão elogiada do PT Anderson.

Red Dust disse...

Este, por acaso, nunca vi. A ver se o apanho em breve.

Abraço.

Pedro Henrique disse...

O melhor filme do PTA e um dos meus favoritos. Os movimentos ousados (câmera que segue os personagens sem cortes) de câmera, as referências aos seus tutores, a trilha sonora country, disco, funk, pop, tudo isso faz parte do universo criado por Anderson. Um espetáculo de eficiência!

Museu do Cinema disse...

Filmão, os travellings são sensacionais mesmo, no melhor estilo Brian De Palma, o filme é irretocavel e desnuda (com o perdão da palavra) a já nua industria pornográfica norte-americana.

Kau Oliveira disse...

Otavio, concordo que PTA já é um dos melhores diretores em atividade. Pra mim, ele tem duas fitas irretocáveis: Magnólia e Sangue Negro. Este, inclusive, é o melhor da década, por enquanto. Abs!

Thiago, esse filme veio dois anos antes de Magnólia. É muuuito bom, mas a duração e o desfecho me incomodaram um pouquinho. Sobre Em Nome do Pai: é um belo filme que apresenta o Day-Lewis espetacular, como sempre. Abs!

Dudu, pois é. Infelizmente não acho que o desfecho seja maravilhoso. Fiquei um pouco decepcionado, sabe?! Abs!

Fifeco, obrigado! Tente encontrar o filme pois é muito interessante. Abs!

Cleber, a nota do filme era ainda menor. Ela aumentou na minha revisão. E, pra mim, Magnólia tá num patamar acima. Abs!

Kami, exatamente. PTA propõe uma discussão sobre as pessoas e não sobre a indústria. E claro, Julianne é MARAVILHOSA aqui!

Alex, eu CHOREI de rir nesta cena!!! O Japinha com as bombinhas rsrsrsrsrsrsrsrsrs. Mas minha preferida é o final do personagem de William H. Macy. Espero que um dia vc encontre o que não gosta no filme.

Ibertson, a minha nota é a menor que vi até agora no meio blogueiro. Acho que vc, assim como a maioria, vai adorar.

Red, que pena. Mas tente encontrar! Abs!

Pedrão, sabes que acho Magnólia e Sangue Negro muito superiores. Mas, como pode ver pela minha nota e texto, Boogie Nights é ótimo. Concordo com vc sobre os posicionamentos de câmera que, de fato, são impressionantes.

Cassiano, não acho o filme irretocável. Como disse no texto, senti falta de um desfecho mais legalzinho, acho que o filme é longo demais e Elswit poderia ter se esforçado mais na fotografia, rs.

Mayara Bastos disse...

Olá, Kau! Tudo bem?

Acho "Boogie Nights" o terceiro melhor filme de P.T.A., e foi ai que começou a mostrar sua versatilidade nas telas, mas a minha nota é a mesma que a sua!

Beijos! ;)

Kau Oliveira disse...

Mayara, tudo bem e vc?! Olha, eu quase acho Embriagado de Amor no mesmo nível de Boogie Nights. Mas é inegável que Magnólia e Sangue Negro são bem superiores. Beijos!

Weiner disse...

Kau, desculpa o sumiço repentino aqui no Bit! Bom, cá estou eu, e sobre Boogie Nights tenho a dizer que é um dos argumentos mais originais que já conferi no cinema, um filme que utiliza de uma ideia engraçada para desenvolver algo (sim) maduro.
Adoro todo o elenco também, acho até que o Walhberg poderia ter sid lembrado no Oscar.
Um abraço!!!!