terça-feira, 3 de março de 2009

Especial PTA: Magnólia


Não sabia como começar este texto, pois não me sinto muito digno de falar de um filme como Magnólia. Foi o meu primeiro contato com o cinema de Paul Thomas Anderson e minha primeira experiência com um tipo de cinema que considero bastante artístico e complexo. Geralmente nós dizemos que determinada direção é espetacular, ou que o roteiro é o trunfo, ou ainda que o artista principal está incrível. O caso desta fita vai muito além: a meu ver, Magnólia é, em sua totalidade, um tour de force. Apesar de apresentar aquelas velhas intersecções de pessoas, Anderson escapa de todo e qualquer clichê possível e lança um roteiro que tange várias questões, mas todas sempre terminam no mesmo ponto: a esperança. Logo, ao contrário do que muitos pensam, este filme não apresenta uma visão negativa sobre a vida, muito pelo contrário. É uma ode aos que estão literalmente quebrados, porém terão uma chance de recomeçar.

Algumas pessoas que residem na mesma região da Califórnia terão suas vidas interligadas a todo instante. Paul opta por nos apresentar, de maneira sistemática e coerente, aos personagens para que possamos entender melhor a dura vida de cada um. O programa de televisão “O Que as Crianças Sabem” - onde um grupo de três crianças desafia três adultos - será um aliado forte na busca pela intersecção de alguns dos characters. É por meio dele, que conheceremos Jimmy (Philip Baker Hall), o apresentador do programa que acaba por descobrir que tem câncer; Stanley (Jeremy Blackman), um menino gênio que é a estrela de tal material televisivo; Rick (Michael Bowen), o pai de Stanley, que praticamente usa o filho no intuito de ganhar dinheiro com a inteligência do garoto; Donnie (William H. Macy) o qual foi um dos primeiros recordistas em “O Que as Crianças Sabem” e hoje leva a vida de maneira confusa; e Earl (Jason Robards), o senil produtor do programa que se vê corroído também pelo câncer, mas este em fase terminal. O filho de Earl, Frank (Tom Cruise), é um instrutor para solteiros e cresceu separado do pai por simplesmente odiá-lo. Entretanto, o moribundo pede que seu enfermeiro, Phil (Philip Seymour Hoffman), entre em contato com Frank para reaver a relação paterno-filial, mesmo sendo tarde. Linda (Julianne Moore) é a esposa de Earl que está desesperada com a atual situação do marido, uma vez que se casou com ele por puro interesse financeiro e hoje se vê dominada pelo remorso. Coincidentemente, o apresentador do programa tem uma filha, Claudia (Melora Walters) que também não fala com ele por admitir que o pai abusou sexualmente dela. Claudia é viciada em crack e não demora muito para o policial Jim (John C. Reilly) bater à sua porta após uma queixa de um vizinho. Ele apaixona-se por ela e aqui começará uma certa busca pelo recomeço da moça. Esta é a teia quase que filosófica que torna-se a atmosfera de Magnólia. Algo que transcende a vida, a meu ver.

O filme fala, em suma, da condição humana: as convergências e divergências da vida. A partir de um roteiro muito bem escrito que, aparentemente seria muito complexo e confuso, PTA fez um trabalho magistral. Personagens que muito se assemelham conosco, os espectadores, trabalham de forma visceral mostrando como a vida pode ser ruim ou boa dependendo de simples gestos ou palavras. Magnólia nos mostra que tudo, simplesmente, acontece; não há formas de fugir, mudar ou comprar o inevitável. Pode-se, sim, ignorar a realidade, mas as consequências são ruins. Os personagens são assim. Vivem fugindo de alguma coisa que os persegue até que, num momento de sublime percepção descobrem: estão fugindo de si mesmos. Eles se esbarram, se relacionam, se misturam, se amam e se odeiam, mas são incapazes de apagar seus erros, e o passado. Cada um tem sua história que, claro, não são lá muito alegres. Todos eles, assim como nós, erram. E todos eles sofrem, menos pelos erros, mas sim pela falta do dom de perdoar. Pronto, eis a questão: perdoar e ter esperança para encontrar o alívio. Magnólia não é um filme sobre pecados, como muitos tacharam. É, ao contrário, um filme sobre perdão, mas o perdão demora a vir. Percebam que não chove à toa. Aliás, chove o tempo todo no filme! A chuva vem para lavar a alma dos frágeis personagens, mas a grande chuva (a metafórica) só vai ocorrer quando o ápice de melancolia de todos os personagens se encontrar, coincidentemente, na mesma rua: Rua Magnólia. Esta é, originalmente, uma flor que simboliza a esperança em algumas culturas. Assim, como um desabafo coletivo, como um sorriso, um abraço e um grito parado no ar, o inacreditável acontece: SPOILER sapos caem do céu. E não adianta ficar parado pensando. Estão caindo, e pronto! E por mais estranha que seja a chuva, acontece. Estes anfibiozinhos são paradoxais: ao mesmo tempo em que são asquerosos, são verdes (cor da esperança). FIM DE SPOILER. Então, por mais complicado e desagradável que seja perdoar, o ato é o único que os levará às suas redenções. E óbvio que outra explicação para este fatídico e surreal momento, vem incrustada em passagens bíblicas que são expostas durante o filme. Mas acho mais coerente deixar interpretações que se agarrem na fé por conta de cada um, de forma individual.

Pra deixar tudo ainda mais impressionante, temos as composições de Aimee Mann para esta obra-prima. Três, em especial, são absurdamente pertinentes: “One” (“...Um é o número mais solitário, que você irá encontrar; dois pode ser pior que um; é o mais solitário número, depois do número um...”), “Save Me” (“...Como Peter Pan, ou como o Superman você aparece... para me salvar...”) e “Wise Up” (“...Você está certo de que existe uma cura e que você finalmente a encontrou...”). E quem jamais vai esquecer o momento em que esta última é tocada? É impossível! O bruto elenco, cada qual entoando a parte que lhe cabe da música. Mas as frases mais aguniantes são ditas por Stanley, uma frágil criança, e por isso acho tão forte: “...Então, simplesmente desista!”. Este elenco vem para deixar a fita ainda mais fenomenal. Todos são personagens importantíssimos, mas é claro que um ou outro merece maior destaque. Julianne Moore, William H. Macy e Melora Walters compõem personagens de maneira irretocável e, pra mim, são os destaques. Mas é claro que, com o comando de Paul Thomas, o elenco é ótimo. E vemos, claramente neste filme, que ele é um fiel seguidor do gênio Robert Altman: sempre jogando com intersecção de pessoas e inserindo complexidade e sensibilidade na trama (vide a masterpiece de Altman, Short Cuts – Cenas da Vida). Ou seja, guiado pela luz de um gênio, Paul Thomas Anderson, com este Magnólia, apresenta ao público seu primeiro trabalho impecável (outro veio, oito anos depois). Esta película desafia a condição humana e escracha indagações que, se respondidas, mostrarão o verdadeiro caminho do autoconhecimento e, principalmente, a estrada para alcançar, regidos pela esperança, a felicidade.





Nota: 10,0


Magnolia; EUA, 1999; DRAMA; de Paul Thomas Anderson; Com: Philip Baker Hall, Jeremy Blackman, Michael Bowen, William H. Macy, Jason Robards, Tom Cruise, Philip Seymour Hoffman, Julianne Moore, Melora Walters, John C. Reilly.

21 comentários:

• Cleber! disse...

Como já havia dito no blog do Weiner, é muito dizer que a fita de P.T Anderson, seja o terceiro melhor filme de todos os tempos !?

Jeniss Walker disse...

o único nota 10.00 de PTA é o filme Boogie Nights.
abraços, Kau.
:P

THIAGO PAULO disse...

Olá...A nota é merecida, mesmo. Eu amo Magnólia e acho a cena em todos os personagens cantam divina. Quando assisti até tive que levantar, para ver melhor, por adorei a música os personagens e tudo mais. Oque dizer da chuva de sapos? Sem palavras para descrevê-la. Um Máximo!!

Esse é um filme que preciso ter em casa.

Abraços...

Mayara Bastos disse...

Olá, Kau! Tudo bem?

Parabenizo você por começar o especial em grande estilo! Primeiro, quero falar que gosto muito de "Magnólia", mas apesar de recibido nota 9,0, acho o segundo melhor de P.T.A. O meu primeiro favorito dele é "Sangue Negro".

Adoro o roteiro de “Magnólia” acho o muito bem escrito e faz nos identificarmos com o problemas de cada personagem. E gostei bastante de ter mencionado Robert Altman, por que este filme lembra muito uma obra-prima dele, "Short Cuts".

Beijos e tudo de bom! ;)

Kau Oliveira disse...

Cleber, por mim tudo bem!!!!!!

Jeniss, Bogie Nights recebe uma nota um tantinho melhor. Aguarde! É o próximo! Abs.

Thiago, eu tb estou louco pra comprar Magnólia. Não acho em lugar nenhum! De fato, a cena de Wise Up é impressionante e eu perco o fôlego toda vez que assisto. Abs!

Mayara, obrigado! Estou atendendo ao desejo da maioria, espero que gostem. Pra mim, PTA tem duas obras-primas: Magnólia e Sangue Negro. Como disse no texto, Magnólia é algo que transcende a vida... filme mágico. E não poderia deixar de mencionar o gênio Altman, né??? Beijos!

Weiner disse...

Puxa, que belo texto, parabéns! Acho que "Magnólia" é um filme difícil de ser resumido através de palavras, já que possui uma profundidade imensa e muitas vezes inalcançável para o público.
Acho, porém, que você demonstrou um ótimo ponto de vista acerca dos sofrimentos, limitações, redenções e (puxa!) esperança (sim, é verdade, "Magnólia também traz esperança consigo).
E concordo com você! Acho que o destaque do elenco está nas mãos da Melora Walthers e do William H. Macy!
Grande abraço! E parabéns novamente pelo excelente texto!!!

Rafhael Vaz disse...

Há alguns meses venho acompanhando o seu blog e (apesar de nem sempre concordar com a sua opinião) gosto bastante das suas resenhas e demais conteúdo do blog.

Ótimo texto!!!
São poucas as boas resenhas li a respeito desse filme. Realmente de certa forma, tudo gira em torno de erros, esperança e perdão, além claro de coincidências.

Mas gostaria de saber a sua opinião, em relação à introdução do filme ao resto do filme. Seria os fatores coincidência e azar?? De fato ambos acontecem no filme, como a pistola que o policial perdeu, a entrevista em que o personagem de Tom Cruise, ve suas mágoas passada desvendadas, entre outras.

Abraço!!

Ibertson Medeiros disse...

Excelente post. Me fez relembrar um pouco do filme, mas mesmo assim tenho que rever. Pena que não acho o DVD em nenhum canto.

Ibertson Medeiros disse...

E Sangue Negro merece nota 10 também.

Museu do Cinema disse...

Magnólia é mesmo sensacional.

Interessante essa revista a obra de PTA, acho que já viu a do Museu né? A famosa SALA VIP!

Kau Oliveira disse...

Weiner, obrigado! Acabei de ler o seu e, de fato, está maravilhoso tb!! Só consegui "entender" que a esperança paira sobre Magnólia quando assisti-o pela terceira vez. E fiquei MUITO chocado com isso, pois todo o simbolismo do filme acerca de culpa e desespero caem por terra quando vemos um quê de hope por ali. Melora Walter, pra mim, é subestimadérrima. Ela é tããão boa no regular Efeito Borboleta... Abração!

Rafhael, fico feliz que acompanhe o blog; obrigado pelo elogio ao texto. Eu acredito piamente que a fita é feita de contradições. Ou melhor, de cenas que te levam à várias conclusões. Logo, acho que determinar se alguns fatos vêm pelo azar, pela sorte ou pela coincidência vai da percepção de cada um. É complicado né?! Eu acho que TODAS as coincidências do filme jogam à favor dos personagens. Talvez se o policial tivesse achado a arma, faria algo terrível e se sentiria culpado pro resto da vida. Abs!

Ibertson, obrigado. Espero que reveja o filme em breve e deixe sua percepção sobre ele aqui.

Cassiano, não vi! Mas vou dar uma olhadela na comentada SALA VIP! =)

pedro tavares disse...

Sensacional. PTA fez uma obra-prima!

Kau, Recount é um ótimo filme, realmente!! E Laura Dern, como sempre...impecável, aquele apelo que o David Lynch parado na rua segurando uma faixa pedindo que ele fosse indicada ao Oscar com uma vaca ao lado foi muito sensato. Ela é uma ótima atriz!

Fifeco disse...

Toda a gente fala do Magnólia. Magnólia, Magnólia, Magnólia... Agora tenho mesmo de o ver. Logo que possa farei mesmo sendo a sua duração um pouco assustadora.

Abraço

Kamila disse...

Para mim, "Magnólia" é a obra-prima do PT Anderson. Adoro a narrativa, o elenco e a maneira como as músicas da Aimee Mann se encaixam com o que vemos em tela.

Beijos!!!

Kaio disse...

Simplismente um dos melhores filmes que já vi .Pra se ter uma idéia,o pior filme do Paul Thomas Anderson é a melhor comédia romântica da decada ;D.

Ansioso pelo post do filme santo \O/

Sérgio Déda disse...

Gostei de ter votado no escolhido... ótimo texto sobre um filme mais que espetacular... em pensar que 8 anos depois ele realizaria um clássico como Sangue Negro...

Kau... deixei um Meme pra vc lah no blog... abraços!!

Vinícius P. disse...

Eu votei no Paul Thomas Anderson para esse especial e fiquei feliz em vê-lo escolhido pela maioria. Estava comentando agora mesmo no blog do Weiner sobre "Magnólia", especialmente no fato dele ter múltiplas interpretações - algo que me fascina. Meu filme favorito em todos os tempos...

Wally disse...

WOW! Dois GRANDES textos de Magnólia no mesmo dia. =D

Agora posso morrer em paz. xD

Enfim, este filme é digníssimo de tudo que escreveu. É magnífico e, depois dessas duas críticas, vou atê reve-lo nesta semana.

Nota 10

Ciao!

Matheus Pannebecker disse...

Kau, de Paul Thomas Anderson só não vi "Boogie Nights". Então, considero "Magnólia" o melhor filme dele! Reune um grande elenco (com destaque para os coadjuvantes Philip Seymour Hoffman e Julianne Moore) e tem um roteiro espetacular, sem falar da trilha da Aimee Mann!

Romeika disse...

Kau, excelente resenha! Eu gosto bastante do filme pelo desenvolvimento dos personagens, pois independentemente do tempo em que estes aparecem, percebe-se muita coisa, ha tanta substancia.. O desenrolar da historia, a metafora dos sapos, a excelente atuacao de todos, e claro, a mao do diretor. Mas meu favorito do PTA (dos q vi) eh o recente "Sangue Negro". Bjs!

Kau Oliveira disse...

Pedro, não é? Eu acho Dern absurdamente subestimada. Deveriam escalá-la em papéis mais interessantes no Cinema.

Fifeco, se você gosta de "Cinema Complexo" este filme é uma excelente pedida. Perfeito do início ao fim; não tem uma falha sequer. Abs!

Kami, lembro de ter ficado CHOCADO na cena em que Wise Up toca. Algo sensacional! Além dele, como eu disse, One e Save Me se encaixam perfeitamente no contexto. Beijos!!

Kaio, vc diz isso de Embriagado de Amor?? Acho este bastante interessante, mas preciso rever para ter mais base. E a de TWBB será o fechamento. Já tenho um rascunho e td!!!

Serginho, abertamente digo que votei na Coppola pq acho que muita coisa deve ser dita acerca de seus subestimados filmes. Mas é uma honra falar de PTA!!! Obrigado pelo elogio e pelo MEME!! Abs!

Vinícius, Magnólia está entre os mais belos filmes que já vi. Abrange vários sentimentos e isso que me deixa mais impressionado.

Wally, achei a crítica do Weiner melhor que a minha hahahahahaha. Mas fiz o que pude e, de fato, desabafei! Excelente filme mesmo e que bom que vc vai rever; sempre vale a pena. Abs!

Matt, ASSISTA BOOGIE NIGHTS!!!!! É tãããão bom... Pra mim TWBB está no mesmíssimo patamar que Magnólia. Levam a mesma nota e td. E, claro, as múscias de Mann são impecáveis.

Romeika, obrigado! Acho Sangue Negro outra obra-prima. Inclusive acho-o a melhor fita desta década, por enquanto!! Nasceu clássico e PTA prova, de uma vez por todas, que é gênio!!!! Beijos!!