quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Saindo do Armário


Este meu texto será um pouco diferente dos demais. Não tem como não discorrer sobre este filme se não vier com a crítica algum debate sobre questões sociais. Sendo o mais direto possível, Saindo do Armário fala de homossexualidade, isto é, trata de como é difícil assumir quem você realmente é – no caso homossexual – numa sociedade absurdamente preconceituosa (ou pelo menos uma boa parte dela). Indo mais além, a fita entra lá no fundo da mente de um jovem, gay, que mesmo sabendo que é, não se auto-aceita, ou pior, finge que é fácil ser gay. Bom, espero que meu texto não chateie vocês, mas vamos lá.

Escrito por Patrick Wilde e dirigido por Simon Shore, o filme conta a história de Steven (Ben Silverstone), um garoto que aos 16 anos tem a dificuldade de assumir a homossexualidade e, por ironia do destino, se vê apaixonado pelo garoto mais cobiçado da escola, John (Brad Gorton). A única pessoa que sabe que Steven é gay é a sua avoada vizinha Linda (Charlotte Brittain em atuação fabulosa), a qual o tempo todo insiste que o menino se liberte e seja quem realmente é. Mas estamos num ambiente conservador, em Londres, num colégio onde tudo é correto. Para complicar, Steven é filho único e tem a infelicidade (sim, no sentido negativo mesmo) de seus pais terem planejado um futuro brilhante para ele: ser o melhor aluno, casar com uma boa mulher, ter filhos e ser bem sucedido. Mas calma aí! Onde falha este plano de vida se ele assumir que é gay? Steven pode continuar sendo o melhor aluno, pode casar, pode ter filhos e ser bem sucedido. Entretanto, muitos não entendem que ser homossexual não é uma doença ou algum tipo de maldição. Continuando... No decorrer da fita, Steven descobre que John está confuso sobre sua sexualidade, mas é mais complicado. Ele é o mais famoso da escola, atleta, homem até que provem o contrário (mas nenhum de seus amigos faria isso, pois era uma certeza). Segue-se assim, um aparente casal onde um irá ajudar o outro a superar o preconceito social e o auto-preconceito.
Steven entra para a revista da escola quando vence um concurso por um artigo que escreveu sobre “A Sociedade Perfeita” (o artigo é uma prova a sua dificuldade de auto-aceitação). Mas quando sua angústia está no auge, ele escreve uma carta anônima para revista, contando a sua história e quão difícil é se firmar em qualquer lugar, na sua condição. O diretor da escola, óbvio, não deixa que a carta seja publicada e eles resolvem deixar uma página em branco, na revista, com uma faixa escrito CENSURADO. A página, com certeza, retrata a nossa sociedade. No dia que Stevem irá receber o prêmio pelo artigo, resolve por a boca no trombone e dizer que ele escreveu a carta e, num momento complicadíssimo do filme, desabafa e dá uma aula sobre preconceito diante de todos. E os seus pais? Algo que a mãe dele diz ao pai já responde a pergunta: “Ele é nosso filho e nós o AMAMOS. Ele precisa do nosso APOIO”. O filme mostra basicamente o conflito psicológico na mente dos dois rapazes, mas acima de tudo ataca com socos e pontapés muita gente.

Uma pessoa que mata não é tão desprezada quanto uma pessoa homossexual. Por quê? A resposta para esta pergunta ainda é desconhecida e muitos consideram que uma discussão acerca disso seria complexa demais. O que tem de complexo? É um ser humano como qualquer outro, mas que tem uma opção sexual diferente, pronto... fim de papo! Mas calma. Digo que não é difícil em termos de sociedade, mas em termos individuais, ou seja, particulares é muito complicado, já que não envolve só aceitação de terceiros. Parece, pois, que o preconceito se dissemina até chegar num “patamar social” acima do nosso. Vamos falar de alguns filmes que retratam a homossexualidade e que são de qualidade: O Segredo de Brokeback Mountain, C.R.A.Z.Y – Loucos de Amor, Meninos Não Choram, Billy Elliot, Meu Amor de Verão. Todos ótimos ou pelo menos bons, certo? Por que raios não foram aceitos pelo público em geral? E ainda, falando do prêmio que move o cinema, por que a Academia não premiou estes filmes como mereciam? Já que o assunto é muito “complexo” para ser discutido, que a resposta fique em segredo – mesmo sabendo qual é. Gus Van Sant e seu Milk que se cuidem, ou podem cair no mesmo grupo dos injustiçados que citei. Peço perdão se falei demais, mas acho que é algo importante e que não deve ser tido como um grande tabu em pleno século XXI. Também espero que não tenha ferido ninguém com alguma palavra, já que minha intenção não era esta, mas sim dizer que cada qual é LIVRE para ser o que quiser e tem o direito a esta liberdade.


Nota: 7,5


Get Real; Inglaterra, 1998; DRAMA; de Simon Shore; Com: Ben Silverstone, Brad Gorton, Charlotte Brittain, Stacy Hart, Kate McEnery, Patrick Nielsen, Tim Harris, James D. White.

29 comentários:

Robson Saldanha disse...

Kau, a sociedade ainda é bastante preconceituosa sim. Muitos não acietam este tipo de relacionamento e pensam na forma hitleriana de acabar com essa 'raça'. Agora se você para pra pensar, o próprio nome do filme em questão é altamente preconceituoso. Não sei a tradução ao pé da letra, mas esse nome não ajudar a amenizar o preconceito, isso é fato!

cinefilapornatureza disse...

Kau, infelizmente, a gente vive em uma sociedade muito preconceituosa, que varre tudo isso para debaixo dos panos para parecer politicamente correto. Não conhecia o filme resenhado, mas, se trata do assunto de forma respeitosa e verdadeira, merece ser visto, com certeza!!!

Hugo disse...

Este é um tema muito complicado, pode gerar discussões infinitas.
Na minha opinião esta situação está se modificando muito, em SP onde moro, o número de pessoas que estão assumindo é enorme, mas como qualquer mudança drástica na sociedade, a aceitação para isso ainda vai demorar mais de uma geração. Foi assim com o preconceito ao negro, que diminiu muito mas ainda persiste. No momento acho que o maior preconceito que estamos vivendo são contra os pobres, estes não tem voz e estão à margem da sociedade. Infelizmente.

Abraço

Cecilia Barroso disse...

Oi, Kau!

Realmente, o tema é complicadíssimo. Muita gente afirma que não tem preconceito mas acaba tomando atitudes preconceituosas.

A auto-aceitação ainda é um grande problema justamente por muitos dos valores estarem completamente entranhados dentro da gente.

Mas as coisas hoje em dia estão muito melhores do que antigamente, graças a muita gente que teve a coragem de encarar o mundo e lutar por direitos que todos devem ter independente de qualquer coisa.

Torço muito para que um dia isso não seja mais problema...

Beijocas

Kau disse...

Robson, por que você acha o título preconceituoso? Você refere-se ao título em português? Eu, particularmente, acho que ele se refere à auto-aceitação do garoto. Concordo com vc sobre o extermínio às raças "impuras".

Kami, o filme é totalmente sério. Não expõe cenas nada abusivas e apresenta o problema de forma interessante. Merece, sim, ser visto!

Hugo, exatamente. O preconceito existe por várias coisas, não só por homossexuais. Não citei os demais "sofredores" pois o filme se refere a este, em específico. Mas o que você disse é válido. Abraços!

Cecília, o preconceito de terceiros é algo muito complicado e que torna-se em algo muito desagradável e dolorido à quem o sofre. Mas, a meu ver, o ponto "X" acerca deste tema é a auto-aceitação... Beijos!

Pedro Henrique disse...

Não conhecia esse, gostei do plot!

Abs!!!

Vinícius P. disse...

Gosto muito de "Saindo do Armário" e concordo com cada palavra que você escreveu aqui. Não é um filme "fácil", mas certamente o resultado é recompensador. Já viu "Delicada Atração (Beautiful Thing)"?

Kau disse...

Pedrão, é difícil, mas bom! Abraços.

Vinícius, não vi. Mas com certeza irei procurar. Obrigado pela dica!

Tiago Marin disse...

Olha Kau, gostei bastante do seu texto e estou curioso para ver este filme...

Mas gostaria de rebater alguns comentários que surgiram aqui do tipo "nossa sociedade está melhorando..."

Está mesmo? Citaram São Paulo como exemplo. Agora serei bem pessoal, mas foda-se. De fato, não me imagino na minha cidade natal com uma vida completamente fora do armário. Nem por minha família (até porque, ela seria algo delicado onde quer que eu estivesse), mas por toda a cidadezinha provinciana e etc.

Me mudei pra SP por outros motivos, faculdade e tals. E lá namoro há quase 3 anos com meu namorado. E? Qual foi a diferença?

Posso dizer que em alguns pontos a aceitação é tranquila. Alguns pontos mais intelectuais, alternativos... Não por gay ser intelectual, mas de alguma forma isso acontece. Mas, quadras do lado desses pontos, ano passado havia ataques a homossexuais promovidos por outros grupos, resultando, inclusive, em três mortes. Tenho dois amigos - namorados - que quase foram atacados também.

Não ando por aí de mãos dadas. Já andei, acho que o espírito de juventude já foi mais forte em mim. Hoje tenho mais medo, onde quer que seja.

A incitação do ódio ocorre em diversas formas, diversos meios de propagação... Não tem como se culpar só os skinheads, os crentes, o Silas Malafaia... E termos uma das maiores paradas gays do mundo não implica em nada, apenas que a prefeitura se diverte em ter, gratuitamente, um puta incentivo para o turismo e comércio da região por um fim de semana... Sem ter que fazer nada por isso.


Não quero criar nenhuma discussão. Eu acho que em vários aspectos, as coisas mudaram, e algumas para melhor. Mas acreditar em um sociedade tranquila em relação à sexualidade alheia é, ao meu ver, bastante impossível ainda nos dias de hoje...

Tiago Marin disse...

Alias, nem é jaba, mas basta ler o caso verídico que escrevi no cinefilando ao comentar o filme CRAZY, onde um pai consegue espancar uma criança de 6 anos de idade - em sao paulo rs - por achar que ele é gay.


6 anos.

Mayara Bastos disse...

Olá, Kau! tdo bem?

Realmente é um assunto polêmico mesmo, e infelizmente o preconceito rola nesta sociedade! Mas parabéns pelo texto! ;)

Fique bem, beijos!

Kau disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Kau disse...

Ti, primeiro parabéns por expôr o assunto de forma tão escancarada. Não quis entrar em detalhes no texto, e minha intenção era de criar um debate aqui nos comentários. O Hugo citou que SP está mais ''zen'', e vc disse que não é bem assim. Talvez as posições de observador sejam diferentes, entende? Enfim... Aqui em Curitiba é a mesma coisa. Deve-se escolher a dedo os lugares para se frequentar... onde já se viu isso?!

Mayara, tudo ótimo e vc? Obrigado! Fazemos a nossa parte... Beijos!

Robson Saldanha disse...

Pare pra pensar Kau. Quando se utiliza o termo "sair do armário" pra alguém, é dizer que ela agora pode se mostrar. Outros títulos seriam menos preconceituosos sim, porque esse título é usado com forma preconceituosa, se parar pra pensar!

Kau disse...

Robson, não acho. Na verdade "Saindo do Armário" é o título da carta que ele escreve a qual é censurada. Acho que este nome funciona como uma crítica aos que não aceitam a homossexualidade. Pessoas devem, muitas vezes, "ficar presas em armários" para ter segurança. Sair dele é como um grito de liberdade. Pelo menos é assim que eu vejo.

jeff disse...

baixei este filme há um tempo mas ainda não assisti. ainda que tenha ficado na vontade, preferi não ler o texto. só fiz uma leitura dinâmica, o que me deixou com uma vontade gigante de assisti-lo. darei uma pausa nos filmes de 2008 e get real será minha próxima conferida.

[]s!

ps: posso te linkar no meu blog?

THIAGO PAULO disse...

Olá...tudo bem?!

Concordo com você, todos esse filmes que citou e tratam do homossexualismo, podem sim estar no Oscar. Pois são execelentes filme!
Ainda não vi todos esses, e nem conhecia Saindo do Armário, mais agora, conheço...E vou tentar echá-lo.

Será que será que Milk pode ganhar um Oscar, o preconceito irá prejudicá-lo? Difícil dizer, né?

Abraços...

Kau disse...

Jeff, espero que você goste do filme. É bem interessantea maneira segundo a qual expõem o assunto. E pode linkar sim! Tb vou te linkar por aqui... Flws!

Thiago, acho que prejudicará sim. Acho que temos dois possíveis vencedores: O Curioso Caso de Benjamin Button e Slumdog Millionaire. A Academia terá uma desculpa para preferir esses dois à Milk: aquele é grandioso e praticamente uma fábula (ele amam isso) e este seria o primeiro ótimo filme independente à ganhar. Abraços!

Museu do Cinema disse...

BELO TEXTO KAU!

Bom, nossa sociedade é muito mais preocupada com aparência do que com conteúdo, sempre foi assim, nos ensinam desde a escola. Somos rotulados ao nascermos.

Os homossexuais são isso, quando ouvimos a palavra, vem logo a imagem. Sem se preocupar se aquele (a) gay é um assassino ou não, se é corrupto ou não, mais ou menos como ter dinheiro.

E infelizmente meu caro, isso tá aumentando, e vou ser duro, isso tudo começa nas nossas escolas, com nossos professores. São eles que disseminam a cultura do pré-conceito e da rotulação. São eles que disseminam a importância do ter dinheiro ou ser um fracassado.

Kau disse...

Obrigado, Cassiano. Eu adoro escrachar assuntos que são tabus, como este. Me irrita, mas realmente acho que o pré-conceito tende a aumentar mesmo. Ainda não sei o porquê, mas tudo conspira para que isso de fato ocorra. Concordo com você sobre o papel de ensinar dos professores, mas também acho que a educação que o indivíduo leva reflete em ser ou não preconceituoso. E esta educação é aquela tradicional que vem de casa mesmo.

Taty Macoli disse...

Nossa! Já estou em busca desse filme pra assistir!
ótimo texto.
abçs!

Kau disse...

Taty, obrigado pela visita e pelo elogio. Entrei no Telecast e adorei o blog de vocês! Até mais!

Vulgo Dudu disse...

Que debate, hein? Tem um casal de amigas minhas, que eu sinto muito por elas. Não podem demonstrar o afeto abertamente. Não podem andar de mãos dadas, não podem trocar uns beijinhos, não podem fazer um gesto carinhoso... Parece que homossexuais são devassos despudorados. Quando, na verdade, tem muito heterossexual com graves desvios de comportamento. Patetico.

E acho que a dinâmica é a mesma para outros tipos de preconceito. Conheço muita gente que jura de pés juntos que não é racista, mas são os primeiros a preterirem um negro em certas situações cotidianas.

Mas eu nem gostei de "C.R.A.Z.Y.". Achei completamente recheado de clichês... Tem resenha lá no meu blog.

Abs!

Kau disse...

Dudu, exatamente. Tenho MUITOS amigos gay e aqui é a mesma coisa. Como vc exemplificou (e o Tiago, acima, tb), é impensável um casal gay sair de mãos dadas nas ruas e, Deus o livre, se rolar uma demonstração de carinho. E "alastrando" a discussão, digo que sou totalmente preconceituoso com pessoas racistas, hahahaha! Acho um dos "sentimentos" mais incabíveis, calculistas e imorais que exite.

Vou dar uma oida no seu texto sobre C.R.A.Z.Y! Abraços.

jeff disse...

bem, assisti ao filme. e já estou com uma enorme vontade de vê-lo novamente. cara, que ótimo tratamento ele dá ao assunto. ainda que não houvesse questões pessoais que fizeram o filme funcionar perfeitamente comigo e praticamente passar a idolatrá-lo hehe, a obra tem grandes qualidades e uma narração muito bem construída. [nota 9]
quanto ao título em port, acho-o panfletário demais, o que suscita de modo muito escrachado e desnecessário a temática gay do filme. prefiro get real [ou 'na real'].

enfim, se não fosse o seu texto, iria tardar ainda mais para ver esse grande filme. valeu! ^^

[]s!

Kau disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Kau disse...

Jeff, eu tive alguns problemas coma direção do filme (pequenos, mas tive) e principalmente com o elenco, do qual somente a personagem Linda é excelente. Merecia algo mais intenso dos artistas. Sobre o título, acho que isso não tem problema, uma vez que o filme todo escracha que a temática é gay. Fico feliz que tenha gostado! Abraços!

jeff disse...

kau, em relação ao elenco só me incomodou um pouco o ator que fez o steven, o qual achava que engrossar a voz era sinônimo de tristeza e choro, e não lágrimas. a charlotte brittain tá muito divertida. ri muito na cena do desmaio. hehe
que tipos de problemas, afim de dizer? há uma cena em que a cabeça do steven é cortada e eu ate achei que o filme estava cortado nas partes superiores, mas não, era de verdade. xD achei um pouco de descuido. não sei se reparou nisso...
e quanto ao título: acho que talvez seja um chamariz para um público específico e não acho isso necessário.

[]s!

Kau disse...

Jeff, agora entendi o que vc quis dizer sobre o título. Concordo, é um chamariz. Sobre a direção, acho que faltou um pouco de direcionamento ao elenco que, em alguns momentos, o próprio ator que faz Steven, estava perdido. Não percebi este corte na cabeça do garoto, hahahahaha. Pode ser coisa minha, mas a inclusão daquele banheiro no parque é meio agressiva, a meu ver. Agressiva não seria bem a palavra... talvez pejorativa. Uma cena ou outra eu cortaria (como a descoberta de que aquele cara que ele sempre encontrava no banheiro, tem família e tudo). Pequenas coisinhas que fizeram o filme perder nota... Abraços!