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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Adaptações - Parte III

3. Golpe de Misericórdia, de Marguerite Yourcenar (Ano: 1938/1939)



Como prometi, volto a falar dos três últimos livros que gostaria de ver em formato cinematográfico. Acredito que este e o próximo sobre os quais falarei, serão os mais desconhecidos por vocês. Mas, por um lado, isso é bom, pois posso despertar o desejo de uma futura leitura satisfatória. Golpe de Misericórdia foi escrito em 1938 e lançado em 1939, três meses antes da eclosão da Segunda Grande Guerra. Sua autora é a belga Marguerite Yourcenar, a qual é infelizmente desconhecida pela maioria. Esta não é sua obra-prima (quem leva este título é o ousado As Memórias de Adriano), mas ainda assim é o livro que mais admiro desta escritora. É um romance curto, denso e que pende para a tragédia. Apelando, como sempre, para dramas históricos, Marguerite nos apresenta uma história que se desenrola entre a Primeira Grande Guerra e a Revolução Russa, a qual narra a vida de três personagens – dois homens e uma mulher fantástica – numa região obscura dos Países Bálticos, isolada pela revolução e pela guerra. O livro escracha uma relação muito original de ódio e amor entre estes três personagens e, utilizando como pano de fundo as transformações do pós-guerra, esmiúça de forma magistral a vida de cada um deles. A obra se aproxima muito de nós, já que a desordem moral que ela descreve permanece a mesma em que fomos e estamos cada vez mais mergulhados. Não diria que é uma história de amor, mas sim um quase puro conflito de paixões e vontades entre três seres submetidos às mesmas privações e aos mesmos perigos. O romance foi acusado por ter exaltado e desacreditado em algumas classes, países e partidos; mas ele não tem este objetivo, absolutamente. Como falei, ele possui fortes inclinações para a tragédia e a parte final, bruta e fria, prova isso. Fica claro, então, que a cena que deveria ficar perfeita, seria o desfecho do possível longa.

Em termos de escalação, não serei tão ousado. Gostaria de ver algo clássico, ou seja, locações dramáticas que contribuiriam com uma bela fotografia, uma trilha intensa (provavelmente Ennio Morricone) e figurinos simples, mas audaciosos. Acredito que é o tipo de filme que precise ser roteirizado e dirigido pela mesma pessoa e quem vem a minha cabeça é Stephen Daldry. O livro possui uma trio, como já mencionei, mas também existem alguns outros personagens. Vou me ater aos três, somente: Eric (James McAvoy – mesmo achando-o um ator fraco, ele tem um estilo clássico que daria certo), Sofia (Keira Knightley, já que o papel parece ser feito para ela) e Conrad (Jude Law). Acredito piamente que desembocaria numa bela fita, onde amor será confundido com ódio, e final feliz com tragédia.

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Aproveito para dizer que terminei de ler Onde os Velhos Não Têm Vez e digo que este foi adaptado de forma impressionante e perfeita. Ainda preparo um texto sobre o livro e o filme, aguardem!

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Adaptações - Parte II

2. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (Ano: 1932)



Primeiramente digo que este é um dos meus livros preferidos e se um dia pudesse vê-lo retratado no cinema da maneira que merece, ficaria realizado. Foi escrito em 1932 pelo inglês Aldous Huxley (Sem Olhos em Gaza, Contraponto, O Tempo Deve Parar) o qual já tem um lugar especial no meu hall de gênios. A explicação para isso é simples: em Admirável Mundo Novo (Brave New World), ele mostra uma antevisão de um futuro, no qual o domínio integral de técnicas e da ciência produz uma sociedade totalitária e absurdamente desumanizada. Neste romance incrustado na ficção científica, a sociedade é dividida em castas, onde os “mais evoluídos e adaptados” dominam os “inferiores”; estas castas, inclusive, eram diferenciadas por cores de roupas diferentes. É um hipotético modelo de como seria o futuro, no qual não há uma mínima noção de ética religiosa, nem de valores morais. Qualquer dúvida e insegurança dos cidadãos era dissipada com o consumo da droga sem efeitos colaterais chamada "soma" (uma espécie de fuga). Neste modelo impressionante descrito por Aldous, as crianças eram criadas em laboratório e o conceito de família era inexistente. O que mais me espanta é o fato de este livro ter sido escrito em 1932 e, mesmo assim, conter uma visão tão científica e audaciosa de um possível futuro. No começo do texto, disse que que gostaria de vê-lo reproduzido nas telonas da maneira que merece. Claro, uma vez que dois filmes em especial já tentaram reproduzir a sociedade descrita por Aldous, mas fracassaram – além de que, os filmes não são adaptações da obra: falo de “O Demolidor” (EUA, 1993 – de Marco Brambilla) e de “Equilibrium” (EUA, 2002 – de Kurt Wimmer). Além de filmes, algumas bandas já se inspiraram na obra para compor canções. É o caso de “Brave New World” (Iron Maiden), “Admirável Gado Novo” (Zé Ramalho), “Admirável Chip Novo” (Pitty). Muitos comparam a obra de Huxley com o filme "Matrix", mas não entro nestes méritos, pois este filme mostra ciência de outra forma.

É complicado imaginar quem poderia adaptar esta obra-prima. Teria que ser algum diretor ousado, mas ao mesmo tempo cauteloso. Creio que seria interessante ver Charlie Kaufman como roteirista e, talvez, David Lynch na direção. A fotografia teria que ser muito peculiar e não penso em outro nome a não ser Matthew Libatique; já para a trilha sonora fico entre Philip Glass e Alexander Desplat. A obra reúne muitos personagens, então só citarei os principais: o Diretor Alfa (Ralph Fiennes), Bernard Marx (Leonardo DiCaprio), Lenina Crowey (Amy Adams), Linda, Mãe do Selvagem John (Cate Blanchett), John, o Selvagem (Paul Dano), Mostafa Mond (Tom Wilkinson). Se assim fosse, concordam que o SAG de melhor elenco já teria dono?

Quatro anos antes de sua morte, dá continuidade à Admirável Mundo Novo com o ensaio Regresso ao Admirável Mundo Novo. Impressionante, esse Aldous. Aqui, ele tenta demostrar que muitas das "profecias" do seu romance estavam a ser realizadas graças ao "progresso" científico, no que diz respeito à manipulação da vontade de seres humanos.

Cena que deve ficar perfeita: queria poder citar pelo menos dez cenas, mas não tem como. Não irei descrever a cena com as minhas palavras; prefiro que vocês leiam e vejam a sua profundidade.

“...Berçários, indicava o aviso. O Diretor abriu a porta e adentrou com os estudantes. Haviam grandes vasos apinhados de flores ao chão, até que o Diretor ordenou que as enfermeiras colocassem livros junto das flores e disse:
- Agora, tragam as crianças.
Entram bebês, com cerca de oito meses, todos iguais (um Grupo Bokanowsky, sem dúvidas) e vestidos de cáqui (pertenciam à casta Delta).
- Ponham as crianças no chão e virem-nas de modo que vejam as flores e livros...
...As crianças engatinharam ansiosas até as flores e os livros. Ao chegarem neles, tocaram, pegaram, despetalaram as rosas. O Diretor disse:
- Observem bem. – E, levantantando a mão, deu um sinal.
Uma explosão violenta fez ecoar um som estridente, fazendo com que os bebês pulassem de susto e gritassem de medo. Não contente, o diretor deu outro sinal e, desta vez, choques elétricos foram dados nas crinças no intuito deles lembrarem disto quando pensarem em olhar flores ou pegar em livros. Os livros e o barulho, as flores e o choque – na mente infantil essas parelhas já estavam ligadas de forma comprometedora... Criaram ódio instintivo à livros e flores...
...Não era seguro que eles desperdiçassem tempo com livros, pois havia o perigo de lerem algo que provocasse o indesejável descondicionamento de algum reflexo...
” (Admirável Mundo Novo, Cap. II).

Mas e as flores? Deixo esta no ar. Sugiro que leiam esta impressionante obra-prima literária, escrita por um dos grandes escritores do nosso tempo.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Adaptações - Parte I

Filmes, telefilmes, minisséries e séries podem tanto ser concebidos de forma original, como podem sair de obras literárias, musicais e teatrais. Dirigindo minha discussão ao cinema, digo que tenho uma certa preferência aos roteiros originais, mas de forma alguma deixo de prestigiar os materiais adaptados. Como leio tudo o que posso, desde uma placa de lanchonete até um belo livro, sempre fico curioso e pensativo sobre como ficaria alguma obra se transposta às telonas. Após uma leitura, logo depois de refletir sobre o livro, gosto de imaginar os artistas que mais dariam certo numa possível adaptação, o diretor, roteirista e minha imaginação é tanta, que até penso em compositor para trilha sonora. Então, resolvi listar cinco obras literárias (em cinco postagens, sempre às quintas-feiras) as quais aprecio bastante e, por isso, gostaria de ver alguém se aventurando e transformando-as em filmes.

1. A Divina Comédia, de Dante Alighieri (Ano: 1310/1321)


Demorei meses para concluir a leitura desta obra. Comecei forçado, pois possíveis questões sobre ela cairiam no vestibular. Mas no decorrer da história, contada na forma de poema, fui me apaixonando pelo livro de forma impressionante. Como disse, é um poema e é dividido em três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso. Não vou negar que, além do viés épico, temos o viés teológico que, a meu ver, está em plena evidência. Muitos pensam que é, de fato, uma Comédia, mas não é. Leva este título, pois termina no Paraíso (aparentemente, bem) e é o significado real da palavra, a qual se contrapõe com a Tragédia. Não tem nem como eu contar toda a obra para vocês, já que é extremamente longa e complexa. Vou citar só algumas questões importantes: cada uma das três partes é composta por tercetos, os quais representam simbolicamente a Santíssima Trindade; possui três personagens centrais, sendo eles Dante (a personificação do homem), Beatriz (que personifica a fé) e Virgílio (a razão e realmente o próprio autor da Eneida). A história narra a viagem de Dante por estes três locais começando pelo Inferno, indo ao Purgatório e terminando no Paraíso. Durante esta viagem espiritual, vários personagens mitológicos e históricos (como o barqueiro Caronte que faz a travessia das almas) cruzam o caminho de Dante, além das fantásticas criaturas (o demônio Etagias e a Medusa, por exemplo). Percebam, pois, que teria a necessidade de ser um filme grandioso com uma parte técnica impecável, principalmente a direção de arte e trilha sonora. A minha indagação fica por conta de se dividir ou não o filme em três partes como é o livro. Temo que deixando tudo numa fita só, falte muita coisa, a não ser que tenhamos uma película de, no mínimo, quatro horas de duração. De pronto, pensei na dupla Larry McMurtry e Diana Ossana (O Segredo de Brokeback Mountain) para escrever o roteiro, enquanto que, na direção, penso na sensibilidade de Ang Lee; mas ao mesmo tempo, na originalidade de Baz Luhrmann. Elenco? Escalaria Ryan Gosling para Dante, Emily Blunt para Beatriz e Daniel Day-Lewis para Virgílio.

Cenas que devem ficar perfeitas: o final, onde São Bernardo acompanha Dante a partir do Terceiro Céu e este, então, vê Deus, pois São Bernardo intercede junto à Virgem Maria e esta concede sua visita; e a aparição de Satanás no Nono Círculo do Inferno (como mostra a pintura abaixo).