Não sabia como começar este texto, pois não me sinto muito digno de falar de um filme como Magnólia. Foi o meu primeiro contato com o cinema de
Paul Thomas Anderson e minha primeira experiência com um tipo de cinema que considero bastante artístico e complexo. Geralmente nós dizemos que determinada direção é espetacular, ou que o roteiro é o trunfo, ou ainda que o artista principal está incrível. O caso desta fita vai muito além: a meu ver,
Magnólia é, em sua totalidade, um tour de force. Apesar de apresentar aquelas velhas intersecções de pessoas, Anderson escapa de todo e qualquer clichê possível e lança um roteiro que tange várias questões, mas todas sempre terminam no mesmo ponto: a esperança. Logo, ao contrário do que muitos pensam, este filme não apresenta uma visão negativa sobre a vida, muito pelo contrário. É uma ode aos que estão literalmente quebrados, porém terão uma chance de recomeçar.
Algumas pessoas que residem na mesma região da Califórnia terão suas vidas interligadas a todo instante. Paul opta por nos apresentar, de maneira sistemática e coerente, aos personagens para que possamos entender melhor a dura vida de cada um. O programa de televisão “
O Que as Crianças Sabem” - onde um grupo de três crianças desafia três adultos - será um aliado forte na busca pela intersecção de alguns dos characters. É por meio dele, que conheceremos Jimmy (Philip Baker Hall), o apresentador do programa que acaba por descobrir que tem câncer; Stanley (Jeremy Blackman), um menino gênio que é a estrela de tal material televisivo; Rick (Michael Bowen), o pai de Stanley, que praticamente usa o filho no intuito de ganhar dinheiro com a inteligência do garoto; Donnie (William H. Macy) o qual foi um dos primeiros recordistas em “
O Que as Crianças Sabem” e hoje leva a vida de maneira confusa; e Earl (Jason Robards), o senil produtor do programa que se vê corroído também pelo câncer, mas este em fase terminal. O filho de Earl, Frank (Tom Cruise), é um instrutor para solteiros e cresceu separado do pai por simplesmente odiá-lo. Entretanto, o moribundo pede que seu enfermeiro, Phil (Philip Seymour Hoffman), entre em contato com Frank para reaver a relação paterno-filial, mesmo sendo tarde. Linda (Julianne Moore) é a esposa de Earl que está desesperada com a atual situação do marido, uma vez que se casou com ele por puro interesse financeiro e hoje se vê dominada pelo remorso. Coincidentemente, o apresentador do programa tem uma filha, Claudia (Melora Walters) que também não fala com ele por admitir que o pai abusou sexualmente dela. Claudia é viciada em crack e não demora muito para o policial Jim (John C. Reilly) bater à sua porta após uma queixa de um vizinho. Ele apaixona-se por ela e aqui começará uma certa busca pelo recomeço da moça. Esta é a teia quase que filosófica que torna-se a atmosfera de Magnólia. Algo que transcende a vida, a meu ver.
O filme fala, em suma, da condição humana: as convergências e divergências da vida. A partir de um roteiro muito bem escrito que, aparentemente seria muito complexo e confuso, PTA fez um trabalho magistral. Personagens que muito se assemelham conosco, os espectadores, trabalham de forma visceral mostrando como a vida pode ser ruim ou boa dependendo de simples gestos ou palavras.
Magnólia nos mostra que tudo, simplesmente, acontece; não há formas de fugir, mudar ou comprar o inevitável. Pode-se, sim, ignorar a realidade, mas as consequências são ruins. Os personagens são assim. Vivem fugindo de alguma coisa que os persegue até que, num momento de sublime percepção descobrem: estão fugindo de si mesmos. Eles se esbarram, se relacionam, se misturam, se amam e se odeiam, mas são incapazes de apagar seus erros, e o passado. Cada um tem sua história que, claro, não são lá muito alegres. Todos eles, assim como nós, erram. E todos eles sofrem, menos pelos erros, mas sim pela falta do dom de perdoar. Pronto, eis a questão: perdoar e ter esperança para encontrar o alívio.
Magnólia não é um filme sobre pecados, como muitos tacharam. É, ao contrário, um filme sobre perdão, mas o perdão demora a vir. Percebam que não chove à toa. Aliás, chove o tempo todo no filme! A chuva vem para lavar a alma dos frágeis personagens, mas a grande chuva (a metafórica) só vai ocorrer quando o ápice de melancolia de todos os personagens se encontrar, coincidentemente, na mesma rua: Rua Magnólia. Esta é, originalmente, uma flor que simboliza a esperança em algumas culturas. Assim, como um desabafo coletivo, como um sorriso, um abraço e um grito parado no ar, o inacreditável acontece:
SPOILER sapos caem do céu. E não adianta ficar parado pensando. Estão caindo, e pronto! E por mais estranha que seja a chuva, acontece. Estes anfibiozinhos são paradoxais: ao mesmo tempo em que são asquerosos, são verdes (cor da esperança).
FIM DE SPOILER. Então, por mais complicado e desagradável que seja perdoar, o ato é o único que os levará às suas redenções. E óbvio que outra explicação para este fatídico e surreal momento, vem incrustada em passagens bíblicas que são expostas durante o filme. Mas acho mais coerente deixar interpretações que se agarrem na fé por conta de cada um, de forma individual.
Pra deixar tudo ainda mais impressionante, temos as composições de Aimee Mann para esta obra-prima. Três, em especial, são absurdamente pertinentes: “
One” (“...
Um é o número mais solitário, que você irá encontrar; dois pode ser pior que um; é o mais solitário número, depois do número um...”), “
Save Me” (“...
Como Peter Pan, ou como o Superman você aparece... para me salvar...”) e “
Wise Up” (“...Você está certo de que existe uma cura e que você finalmente a encontrou...”). E quem jamais vai esquecer o momento em que esta última é tocada? É impossível! O bruto elenco, cada qual entoando a parte que lhe cabe da música. Mas as frases mais aguniantes são ditas por Stanley, uma frágil criança, e por isso acho tão forte: “...
Então, simplesmente desista!”. Este elenco vem para deixar a fita ainda mais fenomenal. Todos são personagens importantíssimos, mas é claro que um ou outro merece maior destaque. Julianne Moore, William H. Macy e Melora Walters compõem personagens de maneira irretocável e, pra mim, são os destaques. Mas é claro que, com o comando de Paul Thomas, o elenco é ótimo. E vemos, claramente neste filme, que ele é um fiel seguidor do gênio Robert Altman: sempre jogando com intersecção de pessoas e inserindo complexidade e sensibilidade na trama (vide a masterpiece de Altman,
Short Cuts – Cenas da Vida). Ou seja, guiado pela luz de um gênio, Paul Thomas Anderson, com este
Magnólia, apresenta ao público seu primeiro trabalho impecável (outro veio, oito anos depois). Esta película desafia a condição humana e escracha indagações que, se respondidas, mostrarão o verdadeiro caminho do autoconhecimento e, principalmente, a estrada para alcançar, regidos pela esperança, a felicidade.