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domingo, 22 de fevereiro de 2009

Milk - A Voz da Igualdade


Alguns filmes e, consequentemente, alguns diretores e roteiristas já se aventuraram em colocar em pauta a homossexualidade. Entretanto, acredito que poucos exemplares (poucos mesmo) tenham utilizado o tema como sendo o seu carro-chefe, isto é, como sendo o centro de tudo. Explico: O Segredo de Brokeback Mountain fala de um amor quase que “proibido” entre dois homens; Elefante – do próprio Gus Van Sant, diretor deste Milk – reproduz o atentado em Columbine e uma das possíveis justificativas para ele esbarra no tema gay. Ou seja, a maioria das vezes em que a pauta é homossexualidade, ela vem embutida em alguma outra história sendo esta o centro de tudo. No entanto, chega um tal de Dustin Lance Black – conhecido por co-escrever alguns episódios da excelente série Big Love – e entrega um roteiro absurdamente político e escrachadamente gay nas mãos do ousado, e genial, Gus Van Sant. O resultado é Milk – A Voz da Igualdade que, diga-se de passagem, é uma das minhas decepções da temporada.

Harvey Milk (Sean Penn) é um nova-iorquino que sempre teve idéias idealistas com base na conquista de direitos aos homossexuais. Já nos primeiros instantes do filme – de forma mascarada, insensível e rápida – conhece Scott (James Franco) com quem, de pronto, vai morar. Abrem uma pequena loja num bairro de São Francisco e Harvey, de fato, decide mergulhar na vida de ativista político na busca por direitos iguais a todos (os gays, que fique bem claro). Numa de suas últimas falas, Milk diz: “eu peço que o movimento continue porque não é um jogo pessoal. Não é sobre ego. Não é sobre poder. É sobre os que são como “nós” aí fora. Não só gays. Mas os negros, os asiáticos, os deficientes, os idosos, os “nós”. Sem esperança, os “nós” desistem. Sei que você não pode viver sozinho na esperança; mas sem esperança, a vida não é digna de viver. Então você, você e você tem que ter esperança.”. Pra mim, isto destoa completamente do propósito do filme, já que durante todo ele, temos a nítida sensação de que Harvey luta única e exclusivamente a favor de gays e não dos demais discriminados. E é isto... os cento e vinte minutos de película mostram a luta e posterior consagração de Milk como sendo o primeiro gay assumido a alcançar um cargo público de importância nos Estados Unidos. E o pior é que meu problema reside na forma de exposição do roteiro que jamais prima por desenvolver cada um dos vários personagens. Deveria, sim, esmiuçar cada um deles, pelo menos a vida do próprio ativista sobre a qual não sabemos nada. A evidência de que a parte política sobe a cabeça dos realizadores do filme e se faz integral pode ser exemplificada numa cena em que Harvey pede que um amigo conte para o pai que é gay por telefone. Que horror...

Assim sendo, e com muita dor no coração, afirmo que este filme peca muito no roteiro e, tropeçando nele, está Gus Van Sant. Não utiliza de sensibilidade alguma e trata do tema com um olhar somente político. O que faltou foi uma humanização uniforme em todo o texto e, repito, uma caracterização competente – a qual era inerente à fita – dos personagens. Podemos nos enganar e dizer que isso existe; mas acontece que alguns dos atores estão bem caricatos, como Emile Hirsh, e isso pode remeter a uma profundidade do seu papel, o que não há. Inserir fatos reais no filme é um artifício utilizado quase sempre hoje em dia e aqui não é diferente. By the way, não vejo muitos artifícios originais e tão competentes que atribuam o adjetivo de espetacular à montagem. Danny Elfman – conhecido por uma parceria quase que constante com Tim Burton – tem uma trilha pequena, mas muito interessante; entretanto, a maioria das músicas da fita são clássicas de outras épocas ou canções não originais. Direção de arte e figurinos apenas satisfatórios (simples, mas corretos) e a fotografia prima por ângulos bonitos, ousados e tenta ser um pouco complexa (jogando com cores e luzes, em algumas cenas). Não entendo – e olha que tentei – todo o oba oba em cima da atuação de James Franco. Pra mim, não faz nada digno de nota especial. Brolin vai bem, tem um material extremamente difícil em mãos pois interpreta o principal adversário de Milk e será responsável pela cena-chave do filme. Caricato ou não, Emile é o melhor do elenco secundário, mas nenhum chega perto da genialidade de Sean Penn: outro tour de force na carreira. Ele é intenso e joga a favor dele próprio, mesmo o roteiro o prejudicando com seu mau desenvolvimento. É, sem dúvidas a melhor coisa do filme, mesmo a maioria dos cinéfilos afirmando que o final é que ocupa esse título. Mas quer saber? Achei apenas convincente e ouso em dizer que tem lá um gostinho bem clichê. Sou fãzóide do cinema bruto e real de Van Sant, mas este Milk – A Voz da Igualdade não chega a ser tão excelente quando alguns outros trabalhos do diretor (como Elefante, Encontrando Forrester e Drugstore Cowboy).



Nota: 6,5



Milk; EUA, 2008; DRAMA; de Gus Van Sant; Com: Sean Penn, James Franco, Emile Hirsh, Josh Brolin, Diego Luna, Alison Pill.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Dúvida


Podemos chegar numa certeza sem evidências? Podemos ainda fazer com que um boato torne-se uma verdade absoluta a ponto de levar alguém à ruína? Eu não tenho este dom. Claro, é uma dádiva, pois a pessoa precisa ter um poder de persuasão incrível e um poder de manipulação social mais fantástico ainda. Uma coisa é fato: a Irmã Aloysius (Meryl Streep), diretora de uma rígida escola no Bronx dos anos 60, tem essas duas qualidades. A partir de um comentário feito pela Irmã James (Amy Adams), segundo o qual o Padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) poderia estar aliciando um dos alunos da escola, Irmã Aloysius o aceita como sendo uma das certezas do momento e, sem dúvidas, irá fazer de tudo para que a verdade – ou seja, o que ela acredita que seja verdadeiro e não necessariamente a realidade - venha à tona. Dúvida (o nome da película a resume perfeitamente), filme do até então apenas correto John Patrick Shanley, viaja pela atmosfera desta escola, na intenção de nos apresentar o que, de fato, está acontecendo ou aconteceu.

A base da fita é um roteiro irretocável e genial de Shanley, isto é, foi baseado numa peça de teatro dele próprio. Durante os seus míseros cento e quatro minutos de reprodução (míseros num bom sentido, pois não necessita de mais nada), somos guiados por diálogos de tirar o fôlego entre os três personagens cléricos, sempre no intuito de fazer uma suposição virar verdade. Quando a mãe do garoto (Viola Davis) que, aparentemente foi molestado, é convocada para uma reunião com Irmã Aloysius e revela fatos sobre seu filho, o filme muda de tom, pois as revelações são interessantes. A mente da freira, a partir daqui, começa a entrar em conflito, mas nem isto a abala. Afinal, Padre Flynn é culpado ou tudo não passa de uma tentativa desesperada da Irmã de tirá-lo do comando? Por muitos odiado, o desfecho, ou seja, a última cena do filme, é um espetáculo! Confesso que estava preparado para algo parecido, mas não tão intenso. O que devemos colocar em pauta é o seguinte: o filme nasceu de um uma peça teatral – que deve ser uma obra-prima – e podemos afirmar isso mesmo que não tenhamos ciência da sua origem. John Patrick Shanley filma de forma clássica, mas sempre colocando toques teatrais na fita. A maior evidência desta “teatrização” é o desenvolvimento de cada um dos quatro personagens: são quase que alegorias que, por meio da retórica, tentam convencer o espectador de forma verbal (a partir dos diálogos) ou visual (com as nuances faciais e corporais). Este tipo de caracterização é típico nas peças de teatro e colocá-lo dentro de um filme é uma sacada de mestre.

Como a incisiva freira, temos Meryl Streep numa atuação visceral. Ela navega dentro da Irmã e não está menos que possuída, fantástica. Não só nos momentos em que se faz imutável aos argumentos dos demais, mas também na fatídica cena da sua humanização ela é impressionante. Amy Adams é a típica freira ingênua que acredita em todos que falam manso com ela. Numa das passagens em que chegam a sair faíscas dos diálogos (Meryl, Amy e Philip juntos), ela dá um show. Outra belíssima atuação, mesmo que secundária, desta atriz notável. Pela maioria, Viola Davis é tida como a estrela do filme em seus mínimos quinze minutos de atuação. Ainda que ache Amy melhor que ela, não nego que é uma cena-chave e que retira tudo de mais profundo de Viola; também, ótimo trabalho. O Padre Flynn é um sacana! Philip Seymou Hoffman se lançou como coadjuvante quando, na verdade, é co-lead. De qualquer forma, vai muito bem, principalmente nas suas metafóricas homilias. Tecnicamente, Doubt é outro trunfo: Roger Deakins, de volta, consegue ter duas das melhores fotografias da temporada (a outra em O Leitor); sempre com pouca luz, denotando a nebulosidade do fato. Howard Shore, um dos meus compositores preferidos, entende a proposta e faz uma trilha instigante e muito grandiosa. No geral, é tudo muito correto. Assim sendo, Dúvida cutuca onça com vara curta e expõe um assunto muito delicado sobre a igreja católica. Também nos deixa uma pergunta no ar: existe dúvida na mais plena certeza?!


Nota: 9,5

Doubt; EUA, 2008; DRAMA; de John Patrick Shanley; Com: Meryl Streep, Amy Adams, Philip Seymour Hoffman, Viola Davis, Mike Roukins, Joseph Foster.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O Leitor


Já nos primeiros minutos de O Leitor, novo trabalho do diretor Stephen Daldry, sabemos que o roteiro do filme nos apresentara a mesma história, mas de maneira não linear em termos temporais. Temos ciência disto uma vez que somos guiados pela juventude de Michael, personagem de David Kross e Ralph Fiennes, de acordo com lembranças que vem à tona quando ele já é adulto. Também já começamos com o fato que será o carro-chefe durante toda a reprodução: a sua paixão súbita por Hanna Schimitz (Kate Winslet) e, aparentemente, a recíproca é verdadeira, mesmo com a diferença de idade entre eles. David Hare, o roteirista que adaptou a obra homônima de Bernhard Schlink, faz um trabalho correto – mesmo que modificando algumas passagens – mas que ainda tem um déficit de genialidade nas grandes cenas do filme, principalmente nas três sequências do desfecho. Aproveitando para ir direto ao ponto, Daldry parece que não é o mesmo que dirigiu os espetaculares As Horas e Billy Elliot, mas por quê?! Absolutamente diferente desses dois filmes, The Reader é frio e erra justamente numa falta de sensibilidade que é a essência da obra literária.

Ambientado em duas épocas, ambas na Alemanha, O Leitor gira em torno do casal que, durante alguns meses, vivem uma tórrida paixão que, a meu ver, é até tórrida demais. Explico: fica claro no livro que é amor e não paixão, mas o enfoque que Stephen deu a este sentimento no longa dá a entender, por oras, que é apenas algo carnal. Sempre quando eles se encontravam, no entanto, algo interessante acontecia. Michael lia para ela alguns trechos de livros, fossem histórias ou poesias, e Hanna simplesmente ficava maravilhada com a forma que as palavras saiam, tão sublimes, da boca dele. Um dia, de uma hora para outra, ela deixa Michael sem dar explicação e só voltamos a encontrá-la no ápice da fita e, junto com o clímax, vem o porquê de Hanna ter fugido e o porquê de adorar que as pessoas lessem para ela. A atmosfera é muito direta, composta por algumas passagens que chegam a ser extremamente insensíveis e, a todo momento, me perguntei como este filme conseguiu indicações nas categorias principais do Oscar. Não é ruim, mas carece de suavidade em sua abordagem final e, principalmente, inicial. O filme toca em pontos interessantes como as consequências do pós-guerra e, objetivamente, do nazismo, questões sobre o destino e um amor que não acabou – mesmo eu reclamando de tal frieza. A última cena em que a personagem de Kate aparece, era para ser “a cena” e só de imaginá-la, lendo o livro, meu coração disparou. Mas foi colocada quase que em segundo plano, infelizmente. Repito que é um bom filme, mas longe de ser um dos melhores da temporada.

David Kross interpreta Michael em sua juventude e o faz de forma muito convincente. O garoto mostra talento e parece ter um caminho legal pela frente. Este foi o ano de Ralph Fiennes: fez O Leitor, A Duquesa, Na Mira do Chefe e o telefilme Bernard and Doris (neste ele está maravilhoso). Sua atuação secundária em The Reader é excelente e merecia uma certa gratificação, talvez. Agora chegamos ao ponto mais complicado do meu texto, Kate Winslet. Quem me conhece além-blog e costuma papear comigo por MSN e Orkut, sabe que sempre defendi a sua indicação como lead por este filme, já que sua personagem no livro é principal. Mas caí do cavalo e me deparei com um papel estritamente secundário e, por isso, vou considerar uma tremenda injustiça que esta vença o Oscar – já adianto que não por estar ruim. O mesmo não iria acontecer se tivesse sido indicada – corretamente – por Foi Apenas Um Sonho onde está espetacular. Mesmo assim, devo ser transparente e gritar a sete cantos: que atuação coadjuvante impressionante Kate tem neste filme! Cada gesto, cada olhar, cada nuance corporal... tudo criado milimetricamente por esta atriz que, num único ano, me deixou perplexo duas vezes. Se estivesse na categoria secundária de atuação, teria disparado na minha preferência e aí sim venceria o Oscar.

Em termos técnicos, e já estou concluindo, The Reader é perfeito. Há quem diga que Roger Deakins não compôs a fotografia individualmente, mas sim com a ajuda de Chris Menges. Sozinho ou em dupla, os enquadramentos seguem um estilo conservador e se fazem irretocáveis. É a segunda ou terceira trilha sonora que ouço e considero melhor que a de A.R Rahman para Quem Quer Ser Um Milionário?. Nico Muhly utiliza acordes que vão desde os mais clássicos até os mais originais e inimagináveis. Gosto muito da direção de arte e, inclusive, Christian M. Goldbeck e Erwin Prib mereciam uma atenção especial. O trio feminino que cuidou da edição (Claire Simpson) e dos figurinos (Donna Maloney e Ann Roth) trabalha nos seus respectivos nichos direitinho. É triste ver um filme com um elenco tão sensacional em cena e com uma técnica tão bela, escorrer pelas mãos de um diretor como Stephen Daldry. E pior: por sua própria culpa aliada com falhas, mesmo sem serem gritantes, no roteiro.


Nota: 7,0



O Leitor; EUA, 2008; DRAMA; de Stephen Daldry; Com: Ralph Fiennes, Kate Winslet, David Kross, Bruno Ganz, Jeanette Hain, Kristen Block, Volker Bruch.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Foi Apenas Um Sonho


É inegável perceber que a pequena, mas já interessante filmografia de Sam Mendes é muito heterogênea. Lançou-se no cinema com o seu tour de force Beleza Americana, o melhor filme que retrata e critica o american way of life. Depois vieram Estrada Para Perdição e Soldado Anônimo, ambos totalmente diferentes, mas no geral corretos. De fato, é complicado colocar o sonho americano – e suas consequências – em evidência, pois envolve questões delicadas. Entretanto o diretor inglês bate na mesma tecla e resolve retornar a este tema com o seu novo trabalho, Foi Apenas Um Sonho.

É bom, pelo menos pra mim, assistir a um filme sem expectativa, pois se ele me agrada a surpresa é maior. Fui com este intuito ver a fita, mas o esforço de não criar expectativa não adiantou de nada, pois a achei somente regular. Baseado no livro de Richard Yates, Revolutionary Road conta a “inovadora” história de um casal que sonha em construir uma família, morar numa bela casa, ter vizinhos legais e que o marido seja bem sucedido. O casal é Frank (Leonardo DiCaprio) e April (Kate Winslet) e tudo vai muito bem até alguns segredos conjugais e vontades particulares de cada um serem trazidos à tona. Isto desencadeará uma série de cenas aparentemente complicadas e seremos conduzidos por uma família que deveria estar recomeçando, mas está se auto-destuíndo. Não posso negar que o desfecho do filme é de ficar paralisado na poltrona (Kate Winslet não menos que impressionante); mas vejam bem: o desfecho é ótimo e não a cena final que, a meu ver, foge completamente da proposta. Os meus problemas começam na raiz do filme que é o roteiro de Justin Haythe. Não sabemos nada sobre a vida dos dois antes do casamento e isso me incomoda um pouco, pois sem ciência do antes, não podemos divagar sobre o depois. E não é só isso: por diversas vezes ficamos perdidos com acontecimentos sem resolução, cenas que aparecem do nada e discussões que fogem completamente do momento em que são inseridas. Sinceramente, o texto é o principal problema, juntamente com a direção de Mendes. Ele faz com que algumas cenas fiquem absurdamente exageradas e promove desavenças quase que desnecessárias de tão histéricas. No entanto, tem alguns posicionamentos de câmera que são geniais, mas infelizmente não estão inseridos ao longo de todo o filme. Acho que também temos erros de divulgação, já que percebo passagens no trailer que simplesmente não existem no filme.

Coloque carros antigos nos sets e locações de filmagem que, certamente, seu filme terá uma indicação à Direção de Arte no Oscar (não vejo outro motivo que justifique a indicação do filme na categoria). Algumas peças de roupa usadas por Kate e Kathy são belas, mas no geral o figurino não tem nada de excelente (só indicaram porque Albert Wolsky é queridinho da Academia). Roger Deakins é o fotógrafo e não preciso dizer mais nada acerca deste aspecto, assim como Thomas Newman é o compositor e também não precisa de elogios (mesmo assim, que trilha linda é essa?!). O elenco secundário é, no mínimo, impecável: Kathy Bates interpreta a vizinha intrometida e fofoqueira lindamente e Michael Shannon, em apenas duas ou três cenas, está magnífico a ponto de sua composição ser uma das mais complexas do elenco. Eu gosto do Leonardo DiCaprio e seus trabalhos anteriores como em O Aviador e Diamante de Sangue são bons. Mas poupe-me quem diz que ele merecia menção nos prêmios por Foi Apenas Um Sonho! Tem momentos satisfatórios, mas em quase 90% de filme ele interpreta como um bebê birrento e chato e nem se esforça em entrar no personagem para retratar um pai de família infeliz. Não é novidade para ninguém que eu não morro de amores pela Kate Winslet – inclusive nem a teria indicado por várias vezes que foi. Mas aqui ela faz algo magnífico e tem a melhor atuação de sua carreira. Era para ser algo contido, mas torna-se uma personagem complexa, instigante e que tomará uma decisão forte no final e, nesta hora, compõe um momento irretocável na carreira da atriz. Então, Revolutionary Road – que deveria ser traduzido ao pé da letra – torna-se somente regular por culpa de um roteiro falho e de uma direção que vai de satisfatória à errônea em questão de segundos. Poderia tomar o mesmo rumo de outras obras que tratem do american way of life, mas acabou desembocando em algo comum e poderia ser totalmente esquecível se não fosse Kate, Kathy e Michael.


Nota: 6,5


Revolutionary Road; EUA, 2008; DRAMA; de Sam Mendes; Com: Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, Kathy Bates, Michael Shannon, Kathryn Hahn, Richard Easton.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Austrália


Lá em 1992, o diretor australiano Baz Luhrmann inicia sua saga no cinema com o filme Vem Dançar Comigo: tecnicamente lindo, mas em termos de texto, regular. Veio, então, o seu mais ousado trabalho Romeu + Julieta, pois ele nos apresenta, de forma contemporânea, uma das mais belas histórias de amor que existe. O filme? Tecnicamente lindo, mas em termos de texto, regular – mesmo Baz recebendo o adjetivo visionário após filmar o longa. Foi em 2001 que Luhrmann mostra à que veio e presenteia o espectador com um dos mais fantásticos musicais do nosso tempo, Moulin Rouge! – Amor em Vermelho. Além de tecnicamente lindo, o filme é um trunfo em termos de roteiro, elenco e direção. Após ver o trailer do seu novo trabalho, Austrália, realmente achei que viria algo do calibre do musical, mas me desapontei (e olha que o filme não é ruim).

Quatro roteiristas de peso (Stuart Beattie, Baz Luhrmann, Ronald Harwood e Richard Flanagan) se unem para levar às telas uma história que mistura misticismo, amor, guerra, racismo e poder, onde clichês não faltarão. Um pouco antes de a Segunda Grande Guerra mostrar suas primeiras faíscas, uma aristocrata inglesa chamada Sarah Ashley (Nicole Kidman, belíssima) é obrigada a ir à sua fazendo de gado no interior da Austrália para reencontrar o marido, mas ao chegar lá se depara com ele assassinado. Desnorteada, ela deve contar com a ajuda do brutamonte Drover (Hugh Jackman) - algo como um Capataz - que a guiará na luta contra poderosos locais. Conhece também o garotinho aborígene Nullah (Brandon Walters excepcional) o qual foge constantemente do vilão da história Neil Fletcher (o irmão de Boromir, Faramir... quer dizer, David Wenham) que quer aprisionar o menino por um motivo no mínimo interessante e triste. Se eu for me alongar contando tudo o que acontece nas quase três horas de filme, fico o dia todo aqui. Então, digo que o filme gira em torno do auto-descobrimento de Sarah, das lendas incríveis acerca do povo aborígene e coisas do tipo. O roteiro, não vou mentir, é bem previsível, piegas e termina com uma cena muito tocante (sim, eu chorei), mas que no fundo o espectador já espera. O elenco está muito a vontade, principalmente a minha querida Nicole Kidman (quase sem resquícios de botox) que volta às origens, mas não tem o seu melhor trabalho. Hugh Jackman é ótimo como capataz homenzarrão e David Wenham se mostra um “bom maldoso”. Mas quem rouba a cena é o garotinho Brandon Walters e vale lembrar que somos levados o tempo todo pela sua narração.

Apesar de pecar, o texto tem algumas sacadas interessantes – quando na dose certa - que se unem a uma boa direção de Baz. Por várias vezes ele opta por homenagear (ou copiar?) filmes que, por algum motivo, se mostram parecidos com Austrália. Vemos muito de Entre Dois Amores, Cold Mountain, ...E o Vento Levou e, principalmente, O Mágico de Oz. Inclusive, menções a este são quase que constantes e achei isso uma graça! Uma cena, em especial, é embalada por Nicole Kidman entoando um pedacinho de “Over the Rainbow” e outra nos mostra uma cena do filme sendo reproduzida no cinema. Homenagear um filme é legal. Achei um doce mencionarem tanto O Mágico de Oz? Sim, mas tudo tem um limite. Baz me deixou irritado num dado momento quando até a maravilhosa frase “there’s no place like home” é utilizada. A composição musical de David Hirschfelder utiliza um ou dois movimentos inspirados em “Over the Rainbow” e, no geral, a trilha é um estrondo de boa. Em quesitos sonoros, na verdade, a fita é excepcional, principalmente sua mixagem de som. O que mais tem de bom na película do australiano? Visualmente – como já esperamos de Luhrmann – o filme é impressionante. Uma poesia constante para os olhos de meros mortais como nós, já que a fotografia prima pelas espetaculares paisagens da Oceania e a cenografia é, talvez, a melhor coisa do filme. Chegam a ser inaceitáveis as exclusões de Mandy Walker na categoria de Melhor Fotografia e da dupla Ian Grace e Karen Murphy em Melhor Direção de Arte (no Oscar). Uma pessoa aqui e outra acolá, reclamam da também esnobada recebida pelos efeitos visuais da fita, mas eu não a indicaria. São belos efeitos, mas exageradíssimos em vários momentos. Também me sinto na obrigação de mencionar a lindíssima canção “By the Boab Tree” que toca nos créditos (clique aqui para ouvi-la). No fim das contas, o visionário australiano dirige algo sobre a sua terra e faz isso com uma paixão evidente. Mas não precisava criar um filme tão comercial, clichê e piegas. Mesmo assim, digo que assistir Austrália é uma delícia; o típico “épico” que, provavelmente mesmo cheio de problemas estruturais, agradará a muita gente.


Nota: 7,0 (aproveito para informar que modifiquei meu modo de atribuir notas aos filmes. De agora em diante, não daria mais notas tão quebradas; o mais “decimal” que acorrerá é um 0,5).


Australia; EUA, 2008; DRAMA/ROMANCE/AVENTURA; de Baz Luhrmann; Com: Nicole Kidman, Hugh Jackman, Ray Barrett, Bryan Brown, Tony Barry, David Gulpilil, Jacek Koman, David Ngoombujarra, David Wenham, Brandon Walters.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button


Como você se sentiria se pudesse nascer velho e, com o passar do tempo, ir tornado-se mais jovem? Nossa existência, na verdade, nos impossibilita de passarmos por esta experiência, mas quer conhecer alguém que passou por ela? Simples: assista ao mais novo trabalho do fenomenal diretor David Fincher e conheça Benjamin Button e sua peculiar vida. O personagem ganha vida pelas mãos de Brad Pitt e, como já disse, nasce com todos os problemas a que pessoas idosas estão submetidas e, de forma curiosa, vai aprendendo a viver à medida que vai ficando mais jovem.

O roteirista Eric Roth foi quem adaptou o belíssimo conto de F.Scott Fitzgerald – o qual sofreu algumas modificações – e presenteou David Fincher com um roteiro digno de ser adjetivado como fenomenal. Somos guiados desde o começo pela narração de Benjamin (a partir de um diário) e já de pronto sabemos que ele foi abandonado pelo verdadeiro pai e acolhido por Queenie (Taraji P. Henson) e seu marido, que o tratam, de agora em diante, como filho. A “criança-senil” deve aprender tudo, mesmo sua aparência denotando que já é muito experiente. Quando tem aproximadamente 7 anos de idade, conhece Daisy (que, quando adulta, é vivida por Cate Blanchett) e logo apaixona-se pela menina, mas sabe que é um amor, por enquanto, proibido. A história vai se desenrolando de forma espetacular e a cada plano e cena, Fincher prova ser um dos grandes diretores em atividade. Não vou ficar contando o filme, até por que posso ir além e dizer que em cada personagem há a personificação da poesia, o que torna minhas palavras quase que inexistentes para expressar o que é O Curioso Caso de Benjamin Button.

Seguindo o seu próprio curso de vida, o que para nós é quase que incompreendido, Button procura aprender com cada pessoa que conhece. Vai da guerra à Paris, passando por Nova York e em cada um desses lugares pessoas especiais cruzam seu caminho. Com a ajuda de efeitos visuais sublimes, a fita se apresenta como sendo uma obra-prima para os olhos. Claudio Miranda entrega um trabalho fotográfico magistral e, é claro, o trio que dirigiu a cenografia (entre eles, Randy Moore) se empenha para retratar o mundo entre guerras, ora sofisticado, ora singelo. Como já mencionei, em outro texto, Alexandre Desplat compõe sua obra-prima. Cada uma das faixas de sua trilha é mais que adequada ao momento e especialmente “A New Life” e “Daisy’s Ballet Career” merecem menção por serem irretocáveis. A maior necessidade era de uma maquiagem competente, o que temos. Uma grande equipe faz um trabalho impressionante com a maquiagem e, o tempo todo, procurei defeitos, mas não encontrei. Brad Pitt está muito bem, mas logo alerto que não é o trabalho de sua vida (ainda fico com sua atuação em Clube da Luta), até por que uma certa atriz australiana rouba a cena: Cate Blanchett não está menos que brilhante. Linda e talentosa como nunca, até com pesada maquiagem atua maravilhosamente e, pra mim, é provável que esteja entre as melhores atuações femininas da temporada. Ouso dizer que, se ela não tivesse uma Rainha Elizabeth no currículo, Daisy seria o papel de sua vida. A secundária Taraji P. Henson também não faz feio e interpreta e já conhecida mãe zelosa que, em qualquer circunstância, preteje e ampara o filho. Encerro dizendo que esta quase que obra-prima de Fincher, retrata o amadurecimento de pessoas, a colisão entre seres desconhecidos e, acima de tudo, fala de vários tipos de amor que, mesmo em cursos e tempos de vida diferentes, jamais morrem.


Nota: 9,5


The Curious Caso of Benjamin Button; EUA, 2008; DRAMA/ROMANCE; de David Fincher; Com:Brad Pitt, Cate Blanchett, Taraji P. Henson, Julia Ormond.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A Troca e Comentários Sobre Globo de Ouro


Nos primeiros dez ou quinze minutos de A Troca, somos guiados pela vida de Christine Collins (Angelina Jolie) e seu filho Walter Collins (Gattlin Griffith). Mãe solteira, ela cria o filho como se este fosse (e é) a sua razão de viver. A relação entre eles é linda, mas todo o ambiente maternal e filial será convertido num ambiente angustiante quando, ao voltar do trabalho, Christine se depara com seu filho desaparecido. A partir daí começa a busca fervorosa de uma mãe pela pessoa que mais ama na vida. Após umas semanas de desaparecimento, ela recebe a notícia de que Walter está vivo e que retornará ao lar. Mas ao se encontrar com a criança encontrada, de pronto, Christine afirma que não é seu filho. A Troca, novo filme de Clint Eastwood, nos prende na poltrona durante suas mais de duas horas de reprodução e nos presenteia, a cada cena, com diálogos excelentes – os quais vão além do desaparecimento do garoto.

Apresentando uma falhazinha aqui e acolá, o roteiro de J. Michael Straczynski baseia-se na história real desta mãe, a qual foi e voltou ao inferno várias vezes movida pela esperança de encontrar seu filho. Mas seria tão complicado às autoridades admitirem ter encontrado a criança errada e reiniciar as buscas? Estamos no fim da década de 20; uma época onde quem detinha o poder – seja policial ou político – era praticamente intocável e onde a voz feminina de nada valia. Desafiando a polícia e afirmando que as autoridades realmente a enganaram em mandar o garoto errado, Christine é mandada a um manicômio com um atestado muito discutível. Lá, ela conhece internas que só foram trancafiadas por terem feito algo “contra” as autoridades locais. Mas graças ao Reverendo Gustav Briegleb (John Malkovich), ela é liberada da clínica e, obviamente, com a ajuda de Gustav, voltará a procurar Walter. A partir daqui, o texto pode conter spoiler. Paralelamente a isto, um detetive é mandado a um rancho para prender um garotinho que está ilegal nos Estados Unidos. Entretanto, este guarda um segredo absurdamente chocante e, numa cena espetacular, conta ao detetive que seu primo, Gordon Northcott (Jason Butler Harner), o obrigou a assassinar vinte crianças a troco de nada. Ao mostrar fotos para que o menino identificasse-as, o detetive fica chocado ao saber que um dos meninos é Walter Collins e fica ainda mais pasmo quando o garoto informa que dois ou três conseguiram fugir. Resumindo, encontram o tal Gordon Northcott, o qual é totalmente perturbado e insano, e ele é condenado à forca, sendo que no seu julgamento, diz que nunca fez mal a Walter e que este é um anjo. Isto impulsiona Christine a nunca mais desistir de procurá-lo e o desfecho não poderia ser mais coerente.
Fim dos possíveis spoilers.

O roteiro se faz quase que genial por conseguir colocar em evidência não só o desaparecimento do garoto, mas sim todas as questões antiéticas acerca da polícia e política naquela época. Clint Eastwood, que pra mim é fenomenal, utiliza um modelo clássico de filmagem em termos de movimentação e posicionamento de câmeras, mostrando tudo sem firulas e construindo closes irretocáveis. O próprio Clint compôs a trilha sonora que apesar de ser doce, sempre nos prepara para um momento de aparente luto e angústia. Na realidade, toda a parte técnica é majestosa, com destaque aos figurinos, à direção de arte e à fotografia. O elenco secundário é fantástico: John Malkovich com uma gana de atuação e o ator meio desconhecido Jason Butler Harner quase rouba a cena. Sabem o que mais me irritou? Alguns dos amigos blogueiros sabem que sou fã incondicional da atriz Angelina Jolie. Mas consigo deixar isso de lado, analisar imparcialmente e, mesmo assim, digo que Angelina está excepcional! Em cada olhar angustiante e diálogo emocionado ela supera seu excelente trabalho anterior (O Preço da Coragem) e atua de forma ímpar. E é isto que me irrita, pois sei que alguns irão dizer que só acho isso por ser fã. Mas posso garantir que consigo separar. Confesso, inclusive, que chorei em várias passagens e também confesso que este é um dos melhores filmes atuais de Eastwood.


Nota: 8,5


Changeling; EUA, 2008; DRAMA; de Clint Eastwood; Com: Angelina Jolie, Jason Butler Harner, John Malkovich, Gattlin Griffith, Michael Kelly, Colm Feore.

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Sobre a Cerimônia do Globo de Ouro 2009: nenhuma surpresa, a não ser a dupla vitória de Kate Winslet (por O Leior e Foi Apenas Um Sonho) e de Anna Paquin pela comentadíssima série True Blood. O filme britânico Slumdog Millionaire, de Danny Boyle, sai consagrado com quatro prêmios, incluindo Filme – Drama e Direção. Não fiquei muito feliz, no entanto, com a vitória de Vicky Cristina Barcelona na categoria Melhor Filme - Comédia/Musical. Na Mira do Chefe e Queime Depois de Ler são superiores, a meu ver. Para conferir a lista completa de vencedores, clique aqui.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Sete Vidas


Durante os primeiros trinta minutos de Setes Vidas, ficamos totalmente perdidos na história. E continuamos sem entender muito bem o que se passa até os minutos finais. Até se a explicação, já no desfecho, fosse espetacular e cobrisse os furos no roteiro, tudo bem. Mas isso está muito longe de acontecer – mesmo com um final imprevisível. A fita nos apresenta de novo a parceria entre Will Smith e o diretor Gabriele Muccino (já vista no melodrama À Procura da Felicidade) que, infelizmente, desta vez, foi horrível.

O roteiro não-linear de Grant Nieporte conta a história de Ben Thomas (Smith) que guarda um segredo, e todas as suas ações durante o filme são decorrentes deste que, na verdade, percebemos que foi uma tragédia no passado. Sabemos que é algo ruim pois Ben vive num poço sem fundo, vivendo de aparências e, em realidade, alguns flashbacks desta tragédia nos são mostrados em seus sonhos. Aparentemente ele trabalha na Receita Federal e escolhe algumas pessoas das as quais deve cobrar o que devem ao Estado. Mas não é isso que ele pretende: para fugir da culpa do passado, “salva” vidas de completos desconhecidos. Saberemos, no fim, por que é sete o número de escolhidos que ele irá ajudar, seja em vida ou em morte (?). A frágil Emily Posa (minha querida Rosario Dawson) é uma destas pessoas e, como era de se esperar, Ben não só irá ajudá-la, mas sim se apaixona pela moça. Pra encurtar, somos guiados por um Will Smith totalmente paradoxal (um homem em extrema depressão que fica fazendo piadinhas bobas?) pela vida de pessoas que estão sofrendo, mas que são orgulhosas demais para pedirem socorro. A película de pouco mais de duas horas, tem um roteiro que beira o absurdo em certos momentos (o protagonista tem fissura por águas-vivas, chagando ao ponto de criar uma em casa) e uma direção erradíssima. Muccino despeja açúcar o tempo todo no filme e enche-o de momentos “chore agora!” – os quais já existem em À Procura da Felicidade – o que, pra mim, não cola. Tudo o que eu esperava é que o roteiro se amarrasse no fim, mas tudo acabou por desmoronar de vez: confuso, pretensioso, longo para o que propõe e minado de falhas (até agora não sei ao certo quem são as sete pessoas).

O elenco se esforça e isso me dá muita pena. Assumidamente não gosto de Smith, mas ele tenta o tempo todo e parece saber que nada tem salvação. Os secundários Rosario Dawson, Woody Harrelson, Barry Pepper e Elpidia Carrillo estão excelentes e, se o filme ajudasse, seriam grandes papéis. Há tempos não via um roteiro e uma direção acabarem com personagens que poderiam ser tão interessantes. A parte técnica não tem nenhum grande chamariz. Somos guiados por alguns flashbacks, mas a montagem só se faz correta e nada mais. Talvez o único grande destaque e, na verdade, talvez, a melhor coisa do filme, é a trilha sonora. Desta maneira, fica claro que, pra mim, Sete Vidas, apesar de lidar com um tema forte, torna-se algo descartável. A nota que a fita conquistou foi dada única e exclusivamente ao elenco e à trilha. Diria que 90% do filme chega a ser descartável.


Nota: 3,5


Seven Pounds; EUA, 2008; DRAMA; de Gabriele Muccino; Com: Will Smith, Rosario Dawson, Woody Harrelson, Barry Pepper, Elpidia Carrillo.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Crepúsculo


O que se espera de um filme que, aparentemente, fala sobre vampiros e outros seres fantásticos? Eu, pelo menos, não esperava nada mais que um amontoado de clichês totalmente desnecessários extraídos de um best-seller cultuado por adolescentes – na maioria dos casos. Entretanto, saí da sessão de Crepúsculo com gostinho de quero mais, louco para saber o que irá acontecer “nos próximos capítulos”. Como não li o livro de Stephenie Meyer, tratei a fita como se fosse embasada num roteiro original e, na verdade, tudo é bem original mesmo.

Isabela Swan (Kristen Stewart) vai morar com seu pai em uma nova cidade, depois que sua mãe decide casar-se novamente. Já no primeiro dia na nova escola vê-se encantada por Edward Cullen (Robert Pattinson), um garoto esquisito aos olhos de todos e que guarda um segredo conhecido apenas por sua família. Não demora muito para Bella e Edward se apaixonarem e, como mandaria o figurino, viverem uma linda história de amor. Mas esta última parte demora a acontecer, pois o segredo dele é algo que poderia colocar a vida da moça em perigo. No fundo, Bella sabe que ele não é normal, e acaba descobrindo que, na verdade, Edward faz parte de um clã de vampiros. A cena em que ela revela saber a verdade sobre ele é dirigida de forma singular pela ótima Catherine Hardwicke: cenas com a câmera em movimentos giratórios e closes no casal. Tudo se encaixa e eles conseguem conviver com as diferenças, até que num jogo de baseball com os Cullen (outra cena maravilhosa em termos visuais), Bella é exposta ao perigo, quando um vampiro sedento por sangue humano, a acha e decide capturá-la custe o que custar. Desta forma, toda a família de Edward se mobiliza para proteger a menina, mas um final interessante está guardado para ela.

Os clichês existem, mas não no que diz respeito ao tema. Eles aparecem, inevitavelmente, nos diálogos inspirados e apaixonados entre o casal, mas tudo dentro da proposta do filme. Ao contrário do que já ouvi, acho o elenco muito bom, com destaque para a talentosa Kristen e Robert, já que a química entre os dois é assustadora. Só queria comentar, ainda acerca do elenco, sobre a presença de Elizabeth Reaser como a mãe de Edward: ela é uma atriz excelente que já mostrou seu talento na série Grey’s Anatomy. Passando para a parte técnica, comentei com algumas pessoas sobre o visual do longa. O tempo todo somos guiados por lugares escuros, chuvosos e nublados, mas a fotografia acompanha cada um destes artifícios e se faz excelente. Óbvio que as majestosas locações (vide a cena do vôo entre as árvores) contribuem também. Alguns nem perceberam, mas a estética nas cenas filmadas na floresta é muito interessante, primando por fumaça (neblina, na verdade), o que denota a nebulosidade da história. Contudo, acredito que o trunfo em termos técnicos seja a composição musical de Carter Buwell: que trilha fenomenal! Sombria, clássica, frenética e romântica, tudo dentro do momento certo. Mesmo com clichês, o filme torna-se totalmente cabível e mesmo com cenas em aberto, fico feliz que temos mais três adaptações pela frente.


Nota: 8,5


Twilight; EUA, 2008; DRAMA/ROMANCE/AVENTURA; de Catherine Hardwicke; Com: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Michael Welch, Justin Chon, Peter Facinelli, Kellan Lutz, Cam Gigandet, Anna Kendrick.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Feliz Natal


Estréias na direção sempre são fatos que podem refletir numa tragédia ou, simplesmente, num momento de glória. E a pressão aumenta ainda mais quando o artista que se aventura pela primeira vez na direção é um excepcional ator e, desta forma, todos esperam que ele seja tão bom atrás quanto na frente das câmeras. O Que é Isso, Companheiro?, O Cheiro do Ralo, Meu Nome Não é Johnny, Lavoura Arcaica e O Auto da Compadecida provam que Selton Mello é um dos melhores atores do cinema nacional e, sendo absolutamente direto, Feliz Natal prova que ele também é um diretor incrível.

Juntamente com Marcelo Vindicatto, Selton escreve um roteiro pesado e que dificilmente passará por momentos “felizes para sempre”. O filme conta a história de Caio (Leonardo Medeiros), um homem de 40 anos que tem um ferro-velho no interior. Ele possui uma companheira e uma ocupação constante, mas no passado levou uma vida de grande irresponsabilidade, da qual saiu vivo por sorte. Decide, pois, depois de muito tempo, retornar para a capital e visitar a família no Natal. Espera que tudo esteja na mais perfeita ordem, mas se depara com o irmão, Théo (Paulo Guarnieri), praticamente terminando o casamento com Fabi (Graziella Moretto), sua mãe (Darlene Glória) vive à base de bebidas alcoólicas e psicotrópicos, e seu pai (Lúcio Mauro) vive com uma mulher extremamente mais nova e de aparência duvidosa. O que se percebe é que todos os membros da família mantêm uma certa distância de Caio, principalmente seu pai que, inclusive, parece detestá-lo. O que também podemos entender é que toda essa revolta contra o personagem de Leonardo, é decorrente de algo que ele fez no passado e muito da sua própria vida é ministrada por esse fato. A vida de todos mudará com a volta de Caio, enquanto este somente quer descobrir quem realmente é.

Não pensem vocês que, no fim, todo vai se encaixar de forma linda e maravilhosa. O filme não nos propõe um final feliz aparente e, diferentemente do final aberto de Linha de Passe, temos um desfecho bem amarrado e com uma dose sensacional de realismo. Selton procurou desenvolver cada personagem como sendo um espetáculo estilo monólogo, ou seja, como se houvesse apenas um personagem em cena e sua caracterização tivesse que ser o mais minunciosa possível. Além disso, é impressionante a quantidade de planos-sequência que existem neste fita. Um, em especial, tem quase quinze minutos de duração e é um dos ápices do filme. A trilha sonora lembra muito as composições de Gustavo Santaolalla utilizando instrumentos de cordas suaves, mas em tons pesados. Num dado momento, quando a angústia dos personagens chega ao auge, a composição também atinge seu ápice e nos arrepia. É difícil eu imaginar alguém quase que inexperiente editando este material como Selton o fez. Cada corte, cada tomada e cada plano foram bolados perfeitamente, inserindo ao filme um pouco de complexidade. Lula Carvalho (responsável pelas fotografias de Tropa de Elite e Fabricando Tom Zé, por exemplo), mais uma vez faz algo magistral. Entretanto, acho que Mello acabou prejudicando o trabalho de Lula. O próprio estreante afirmou que se inspirou muito em John Cassavetes (Uma Mulher Sob Influência, Faces) e seus filmes visualmente deslumbrantes e altamente estilísticos. A fotografia, então, é pesada, e prima por cores fortes e vários dos ângulos são exagerados demais. Acabou que, infelizmente, mesmo Selton tendo a boa intenção em seguir o estilo de Cassavetes, cometeu certos exageros estilísticos e estes são os únicos defeitos da fita.

Preferi guardar o último parágrafo para comentar sobre o elenco. Leonardo Medeiros é um ator muito, mas muito notável. Exterioriza todo o medo, cansaço e confusão sentidos por Caio. Mesmo estando absurdamente bem, continuo achando que seu melhor trabalho no cinema está em Não por Acaso. Depois de muitos anos sumida, digo que temos a volta triunfal da musa Darlene Glória (a qual já deu show em Terra em Transe e Toda Nudez Será Castigada) . Que espetacular a sua atuação! Ouso em dizer que já está entre os melhores trabalhos coadjuvantes que vi no cinema brasileiro. Lúcio Mauro, conhecido por papéis cômicos no sofrível Zorra Total, por exemplo, mostra sua veia dramática e também convence. Sem falar no casal em crise, personificado por Paulo Guarnieri e a minha queridíssima Graziella Moretto: perfeitos. Ele é um “pau mandado” na vida e ela já não agüenta mais o peso de dias cada vez mais cansativos e piores. Um elenco de peso, conduzido por um grande ator que, hoje, eu digo que já é uma grande promessa como diretor no quadro nacional. Feliz Natal, do início ao fim, mostra com naturalidade a vida de pessoas infelizes e termina não sendo pessimista, mas sim realista.


Nota: 9,0


Feliz Natal; Brasil, 2008; DRAMA; de Selton Mello; Com: Leonardo Medeiros, Darlene Glória, Lúcio Mauro, Paulo Guarnieri, Graziella Moretto.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Queime Depois de Ler


Nesta última sexta-feira eu estava muito indeciso sobre que filme ir conferir no cinema. As opções mais viáveis eram Feliz Natal (curiosidade em ver Selton Mello na direção), Rede de Mentiras (não é bom desprezar um Ridley Scott) e Queime Depois de Ler (filme que, pelo trailer, não surtiu nenhum efeito em mim). Inclusive cheguei a pedir o conselho do Robson (Portal Cine) e chegamos à conclusão de que o filme nacional seria uma boa pedida. Tudo mudou de rumo quando minha prima, cinéfila como nós, praticamente me arrastou para assistir ao filme dos irmãos Coen. Após sair da sessão (demoramos a sair da sala, já que há ótimo final), agradeci muito a ela, pois o filme foi uma grata surpresa.

Primeiro quero deixar bem claro que prefiro o cinema “sério” de Joel e Ethan, exemplificado por
Onde os Fracos Não Têm Vez, ao cinema que sempre prima pelo humor negro e sarcástico. Esta é a razão pela qual não estava nem aí para este Burn After Reading: segundo Cassiano (Museu do Cinema), o filme “é uma mistura de Fargo com O Grande Lebowski” e isso me incomodava um pouco, uma vez que não morro de amores por ambos. Logo, o improvável aconteceu, pois desde a primeira cena eu achei este novo trabalho dos irmãos muito legal. O filme gira em torno de vários personagens que se vêem interligados por um CD que contem dados confidenciais sobre Osborne Cox (John Malkovich), um veterano e ex-agente da CIA (acaba de ser demitido). Sua esposa, Katie Cox (Tilda Swinton), tem um caso com Harry Pfarrer (George Clooney), um ex-policial meio maluco que tem mania de perseguição e está desenvolvendo um aparelho super moderno (um tipo de vibrador). Numa academia de ginástica, não muito longe disso, estão Chad Feldheimer (Brad Pitt) e Linda Litzke (Frances McDormand): ele é um personal trainer muito do animado e ela é uma mulher infeliz afetivamente que vive arrumando encontros com caras que conhece na internet. Um belo dia, Chad encontra o tal CD confidencial (que, por acidente foi parar na academia e isso é bem explicado no filme) e, junto com Linda resolvem chantagear Osborne Cox. A cena em que isso ocorre, por telefone (!!!!) é muito, mas muito hilária. Mas como Katie Cox e Harry Pfarrer entram nessa jogada? Simples: forma-se uma figura geométrica amorosa, pois Harry conhece Linda pela internet e eles começam um caso (percebam a figura geométrica: Clooney com Frances e Tilda e esta com o marido. A esposa dele (Elizabeth Marvel), por sua vez, também o trai). A fita trabalha toda essa intersecção entre eles e desenvolve uma trama incrível em que loucura, conspiração, CIA e ousadia se unem. Isso resulta no melhor filme de Joel e Ethan, salpicado pelo humor negro, que já vi.

A direção é muito inteligente e cautelosa, mas ainda assim existem certos pontos que continuam me incomodando e, por coincidência, foi o aspecto que fez o filme perder um pouco de nota. Algumas pontas ficaram soltas e uma certa confusão se instalou, por oras. No mais, a mistura de sentimentos ao longo da reprodução é impressionante. Chorei de rir em várias cenas, fiquei tenso e até estatizado em outras. A técnica da fita é correta, começando pela fotografia e terminando na bela trilha sonora, mas o melhor da película não está nem na direção e nem na parte técnica. O elenco, provavelmente, estará entre os melhores da temporada. O trabalho dos atores é algo magnífico, sensacional! No começo fiquei muito preocupado, já que cada um deles é tão bem desenvolvido e caracterizado que pareciam caricatos. Mas no decorrer de tudo eles foram mostrando uma química fabulosa. O destaque vai para o trio Brad, Frances e John (os demais também estão ótimos, mas estes estão num patamar acima). Ouso em dizer que, se a concorrência não estivesse tão forte, indicaria os três ao Oscar. Alguns vão achar esquisita a minha nota, pois por esses dias disse que seria 8,2. Mas hoje, para melhor me embasar, revi algumas cenas e ela subiu merecidamente. Um exemplar interessante de uma dupla de diretores que provam saber utilizar humor com inteligência.


Nota: 9,0


Burn After Reading; EUA, 2008; DRAMA/COMÉDIA; de Joel e Ethan Coen; Com: Brad Pitt, Frances McDormand, John Malkovich, George Clooney, Tilda Swinton, Richard Jenkins.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O Silêncio de Lorna


O cinema belga dos irmãos Dardenne (Jean-Pierre e Luc) é, no mínimo, de difícil digestão. Digo isso, pois eles sempre primam por temas muito peculiares que chegam a ser, muitas vezes, ousados demais. A primeira fita que assisti deles foi A Criança, o qual venceu a Palma de Ouro em 2005 e, a meu ver, além de ser uma obra-prima, tem presença indelével na minha mente. Mas, sinceramente, parou por aí, já que não gostei de O Filho, tampouco dos seus curtas em Cada Um Com Seu Cinema. Fui ver, então, este elogiadíssimo O Silêncio de Lorna pensando ser tão sensacional quanto o primeiro. Um bom filme, mas que tem alguns aspectos discutíveis.

Lorna (Arta Dobroshi) é uma albanesa que deseja ter a cidadania belga para abrir o seu próprio negócio. Para tanto, ela aceita entrar num plano e se casar com Claudy (Jérémie Renier, ótimo ator e protagonista em A Criança), um dos capangas, belgas, do mafioso Fábio (Fabrizio Rongione). Mas tudo muda de enfoque, quando Lorna percebe que Claudy tem sérios problemas com drogas, resolve ajudá-lo e acaba afeiçoando-se a ele. Entretanto, para de fato conseguir o que quer, ela deve casar-se novamente (agora com um russo) ao passo que Claudy deverá ser eliminado (sim, morto), e é o que ocorre. Mas algo acontece na vida da albanesa que a fará mudar completamente de idéia. Ficará Lorna em silêncio sobre toda essa espécie de máfia?

O longa tem sérios problemas de ritmo. Na verdade, ele é bem parado o que me fez até perder o foco em certas partes. Mesmo assim, todo esse confuso roteiro é muito interessante e, no final, consegue fechar todos os buracos deixados ao longo da reprodução. Os irmãos belgas, como normalmente o fazem, trabalham quase que o tempo todo com planos-sequência, mas desta vez eles não funcionam muito. A ausência de trilha, também comum vindo deles, é sempre uma ótima sacada e deixa tudo mais real e bruto. É uma história muito fria, e tudo é maximizado pela belíssima atuação de Arta Dobroshi: fantástica em cada expressão, olhar e, principalmente nas cenas em que se auto-agride. Jérémie Renier também está excepcional e as cenas nas quais está em abstinência são incríveis. Gosto do desenvolvimento dos personagens e do primeiro ato da fita, mas tudo desaba no segundo e só vai voltar a ser satisfatório na última cena, que é linda. Eis outro filme de Jean-Pierre e Luc que, apesar de ser um “genuíno Dardenne”, não chega nem perto da genialidade de A Criança.


Nota: 7,0


Le Silence de Lorna; Bélgica/França, 2008; DRAMA; de Jean-Pierre e Luc Dardenne; Com: Arta Dobroshi, Jérémie Renier, Fabrizio Rongione, Alban Ukaj, Morgan Marinne.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Os Estranhos


No dia em que fui assistir ao filme espanhol [REC], tive a oportunidade de conferir o trailer deste Os Estranhos e achei muito interessante. Minha curiosidade aumentou, quando soube que toda a trama era baseada em fatos reais e, sendo assim, fui conferi-lo, ontem, com grandes expectativas. O filme não decepciona, isso é um fato. Tem ritmo e consegue construir uma atmosfera de suspense. Mas apesar de acertar e até chegar a ser genial em algumas partes, ele possui alguns erros chatos e algumas cenas que pendem ao exagero.

O longa começa nos apresentando o casal de protagonistas Kristen (Liv Tyler) e James (Scott Speedman) e nos situa na situação pela qual eles tinham acabado de passar (aparentemente James pediu Kristen em casamento, mas esta não aceitou). Decidem, pois, por passar a noite na remota casa de veraneio da família dele, no intuito de absorver uma noite difícil. Mas o que era para ser uma fuga ou um simples descanso, logo vira um caos e aquela noite será a pior da vida do casal. Três estranhos, mascarados, começam a aterrorizá-los e, ao que parece, têm a gana de assassiná-los. O clima de desespero e suspense toma conta do filme e tudo é maximizado por uma excelente trilha sonora e pela bela atuação de Tyler. O trio mascarado, pensando que estavam em época de Carnaval, parecem se divertir em ver James e Kristen sem ter o que fazer; e nem uma fuga de carro dá certo. Em suma, os “insanos” tentam de tudo para capturá-los e sabemos o que acontece. Como assim? Explico: a fita começa com um narrador informando que no dia 11 de Fevereiro de 2005 um casal foi brutalmente assassinado (logo, já tomamos nota do desfecho do longa) e os detalhes de tal incidentes ainda não são totalmente conhecidos. Obviamente, o filme foi baseado neste fato; mas até onde o roteiro é a tentativa da sua reprodução? Onde começa e onde termina a veracidade da história? Isso eu realmente não sei responder. Comento isso, pois uma cena em especial me pareceu um tanto forçada, e não sei se foi uma mera inserção por parte do roteirista e diretor (Bryan Bertino) ou se realmente aconteceu. Além disso, há várias falhas. Pequenas, mas estão presentes; como o relógio que marca quatro da manhã, dali meia hora quatro e meia e quando o dia amanhece continua quatro e meia. Contudo estas nem comprometem o filme, mas o que me deixou muito nervoso foi o seu desfecho. Na verdade, nem é o desfecho, mas o último segundo do filme (sim, o último segundo mesmo): este, a meu ver, é ridículo.

Como eu mencionei no começo, a fita chega a ser genial em alguns aspectos. Além da trilha e de Liv Tyler, gosto bastante da movimentação da câmera. Um quesito, particularmente, que achei incrível, foi o seguinte: pelo jeito, ninguém sabe a identidade dos assassinos até hoje. Bertino teve a excelente sacada de jamais nos mostrar o trio sem as máscaras, e mesmo quando eles as tiram, o diretor dá um jeito de mostrá-los de costas, ou de lado, sem revelar os seus rostos. Devo ser justo e dizer que a direção pode ser resumida como despretensiosa. Não tem o intuito de criar nada mirabolante e sem explicação dentro do que propõe. Desta forma, digo que é um material com falhas, mas legal, que vale a pena conferir.


Nota: 7,5


The Strangers; EUA, 2008; Suspense; de Bryan Bertino; Com: Liv Tyler, Scott Speedman, Peter Clayton-Luce, Gemma Ward, Kip Weeks, Laura Margolis.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

[REC]


Algumas vezes já disse que não sou fã de fitas de terror. Mas não nego que adoro ficar sob tensão a ponto de suar frio quando o material é competente. Mesmo depois de ouvir comentários massacrando o filme espanhol [REC], não desisti e fui assisti-lo mesmo sem muita expectativa. Resultado: o filme é tão interessante, que eu precisei revê-lo para escrever um texto mais embasado.

Ângela e Pablo são dois repórteres que decidem fazer uma matéria em um quartel do Corpo de Bombeiros com a intenção de mostrar o dia-a-dia desses profissionais. Mas ao acompanhá-los a uma de suas saídas noturnas, o que parecia uma ocorrência rotineira de resgate se converterá em um autêntico inferno. A ocorrência partiu de um prédio, onde os moradores se queixaram de gritos de uma senhora que reside no local (a mulher era classificada como estranha pelos vizinhos). Chegando lá, os dois bombeiros, juntamente com a dupla de cinegrafistas, dão de cara com uma viatura da polícia, cujos policiais já estavam tentando resolver o problema. Ao arrombarem o apartamento da senhora, se deparam com esta toda ensangüentada e totalmente fora de si e, num ato súbito, ela ataca um dos policiais. A parir daí começa, de fato, o autêntico inferno do qual falei anteriormente. Apavorado, todos voltam ao térreo (onde se encontram os demais moradores), com o policial gravemente ferido no pescoço. Um certo caos se instala, e quando a gritaria está no auge, somos guiados pela câmera até o ápice da escada e, de forma assustadora, um corpo é jogado lá de cima. Deixo claro que tudo o que vemos é gravado pelo cinegrafista, ou seja, temos a nítida sensação que estamos vivendo aquilo realmente. Aqui e acolá, os que foram feridos pelos “histéricos” ou entraram em contato com sua saliva, começam a expressar as características insanas e doentias. Para o desespero de todos, o edifício é isolado pela Vigilância Sanitária (sim, eles ficam trancafiados no prédio sem saber o que está ocorrendo), mas por que? Este é o fato que classifico como interessante na película: a explicação, isto é, o desfecho para o fato é extremamente instigante e, a meu ver, envolve discussões éticas acerca de religião, sociedade e ciência.

Há tempos não suava frio ao assistir um filme de terror. E muitos questionam por ser uma fita deste gênero vinda da Espanha, já que o país não tem tradição nesta linha de filmagem. O roteiro é muito bem escrito e só erra num certo exagero em algumas cenas. O ápice de tudo é a espetacular direção da dupla Jaume Balagueró e Paco Plaza – mesmo eles tendo me deixado tonto pelo excesso de movimento: recorrendo o tempo todo à câmera na mão, eles arrebatam a fita com uma genuína e magistral atmosfera de suspense e nos fazem entrar num mar de agonia. Percebemos, sem problemas, que temos três atos: o primeiro é frenético, mas o segundo é calmo para preparar o espectador para um terceiro mais impressionante que o inicial. Adorei a inserção deste ato “calmo” no meio, já que funciona como uma fuga, ou como uma simples parada para respirar e tomar uma água. Os artistas que fazem parte do elenco não nos proporcionam nada de magnífico – apesar de Manuela Velasco ter atuado de forma excelente; mas agem com uma naturalidade ímpar, com a idéia de ambientar uma trama o mais verossímil possível. E conseguem, uma vez que tudo o que está diante dos nossos olhos parece real. Desta forma, este incrível material espanhol, firma-se como um dos filmes mais bem bolados e tensos que vi nos últimos anos. Li vários comentários que comparavam [REC] com A Bruxa de Blair (dos diretores Daniel Myrick e Eduardo Sánchez), por conter o tom real (e documental de filmagem e também pelos momentos de tensão proporcionados. Fiquei tenso no filme americano, mas o espanhol, ao menos pra mim, funcionou muito mais. Não só em termos de sustos e desidratação por suor excessivo, mas também por apresentar um roteiro mais sólido, embasado e convincente.


Nota: 9,0


[REC]; Espanha, 2007; Terror/Suspense; de Jaume Balagueró e Paco Plaza; Com: Vicente Gil, Manuela Velasco, Manuel Bronchud, Carlos Lasarte, David Vert, Javier Botet, Martha Carbonell e Maria Lanau.

domingo, 16 de novembro de 2008

Vicky Cristina Barcelona


Woody Allen é, como todos nós sabemos, um grande conhecedor de todos os tipos de relacionamentos. Mostra o delicado relacionamento intra-familiar em "Hannah e Suas Irmãs", o louco e fora de controle em "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa", aquele que é movido por interesse e manipulado pela sorte em "Ponto Final". Mas esta relação amorosa entre pessoas foi deixada de lado nos trabalhos anteriores de Allen e isso rendeu filmes altamente discutíveis e inferiores aos citados anteriormente. Como muitos, eu acho "Scoop – O Grande Furo" fraquíssimo e "O Sonho de Cassandra" algo que não resume a maestria de Allen.

Mas para a felicidade geral da nação, o velhinho volta ao seu mundo e nos revela seu novo trabalho, "Vicky Cristina Barcelona" que, na verdade, não tem sido recebido de forma tão calorosa. A fita nos apresenta Vicky (Rebecca Hall), uma mulher correta, decidida e que
não leva a vida de maneira impulsiva; e Cristina (Scarlett Johansson) que é o oposto de Vicky: impulsiva, sem medo e aventureira (em todos os sentidos). As duas são grandes amigas e resolvem passar férias em Barcelona, antes que Vicky case com Doug (Chris Messina). Lá, de cara, elas conhecem Juan (Javier Bardem), um homem que acabou de separar-se da esposa neurótica Maria Elena (Penélope Cruz), a qual o esfaqueou. A partir deste momento, o filme realmente começa: Barcelona, vinhos, uma belíssima paisagem, Vicky, Cristina e Juan. As amigas, ambas a seu modo, se apaixonam pelo espanhol, mas seus instintos agem de maneiras completamente diferentes, como era de se esperar. Enquanto Vicky tenta encobrir o fato de sentir-se atraída por ele, Cristina se joga inteiramente. Trocando em miúdos, a impulsiva vai morar com o galanteador, enquanto a “pé no chão” resolve casar-se, infelizmente, na própria Espanha. A vidinha de Cristina e Juan muda da noite para o dia, quando Maria Elena tenta suicídio e o ex-marido é obrigado a acolhê-la em casa. A partir daí, um novo tipo de relacionamento começa a ocorrer. Parece que o casamento de Juan e Maria não vingava pela falta de um ingrediente e ambos acreditam que este é a própria americana loira de olhos verdes. Sim, temos um triângulo amoroso dos mais interessantes e intensos que já vi. Tudo vai acontecendo com naturalidade (vejam bem, isso não quer dizer que seja com sensibilidade), até um desfecho previsível, mas convincente.

A premissa é excelente, mas não consigo atribuir este adjetivo ao filme. A forma segundo a qual Woody resolveu expor o roteiro, me irritou demais e não me refiro à filmagem, em si. Mas sim à narração feita durante toda a reprodução, que muitos dizem ser o trunfo do filme (pra mim, só atrapalhou). Inclusive, digo que por vários momentos cheguei a odiar o longa e achá-lo sem ritmo. A idéia, pra mim, era personificar, em cada um dos personagens, um tipo de paixão (ou amor, talvez). Cheguei a achar que isso seria um pouco pretensioso, já que o desenvolvimento do elenco teria que ser minucioso demais, o que deixaria a obra num patamar de complexidade alto. Contudo, como na maioria das fitas deste diretor, esta exposição dos personagens ficou muito boa. O elenco é notável (menos o tal Chris Messina que, a meu ver, poderia ter sido substituído por qualquer outro ator) e o mais interessante é a química entre os artistas. Óbvio que o destaque vai para Penélope Cruz que se firma como uma das melhores atrizes desta geração. Sua atuação é extraordinária por conseguir misturar insanidade, paixão e um tom sexy à Maria Elena. Gostaria de salientar que Rebecca Hall desempenha um papel muito bom o qual me surpreendeu. As locações são brilhantes e mostram uma Barcelona deliciosa. Mas outro quesito que me deixou bastante preocupado e insatisfeito, foi a aquela música insuportável que toca o filme todo (a canção, não a trilha sonora em si). E para ser sincero, aquela composição não tem nada de tão revolucionário, já que é inspirada em acordes espanhóis.
Como já dito, por vários momentos odiei a película. Ficava sem saber o por que daquilo tudo e confesso que até agora não absorvi muita coisa daquele pentágono amoroso (Vicky, Doug, Cristina, Maria e Juan). Tento entender o porquê de a personagem de Scarlett ser o toque final para que o romance do casal espanhol se alinhe. Infelizmente, achei que o filme só funciona se formos analisar as diferentes maneiras de se viver uma paixão. Mas de resto, acredito que faltou algo; não cobro uma explicação para isso, mas sim uma maior clareza no roteiro e, principalmente, uma maior dose de sensibilidade (aqui, já sei que todos vão discordar). Esqueci de mencionar o problema cronológico: é impressão minha ou a história parece ser contada durante um ano todo (e não só durante o verão)? Conclusão: "Vicky Cristina Barcelona" é, sim, um bom filme. Melhor que os dois trabalhos anteriores do diretor, mas inferior a vários outros. Só fico imaginando quando é que vou dar outra nota acima de 8,0 para um filme do velhinho...


Nota: 7,0


Vicky Cristina Barcelona; EUA, 2008; Drama/Comédia/Romance; de Woody Allen; Com: Rebecca Hall, Scarlett Johansson, Javier Bardem, Penélope Cruz, Chris Messina, Patrícia Clarkson.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

High School 3 e mais Zac Efron


A turminha da febre norte-americana High School Musical está de volta. E esse regresso veio com um estouro nas bilheterias de todo o mundo, o que nos denota que a legião de fãs é imensa. O gênero musical é um dos meus preferidos, mas eu detestei o primeiro filme desta “saga”. E não só pelo elenco, mas sim pelo roteiro, direção e tudo mais (vale lembrar que eu nem me arrisquei no segundo filme). Entretanto, depois dos elogios – pra mim infundados e exagerados, visto que eu acreditava ser impossível acontecer o que todos disseram – resolvi assistir, com minha priminha que é fissurado por eles, hoje à tarde (sim, eu larguei meu trabalho de conclusão de curso e fui ver High School Musical 3: O Ano da Formatura). Eu percebi que não devo ser tão cruel com a fita, pois ela só tem a pretensão de viciar os mais jovenzinhos; então a enorme quantidade de clichês deve existir. Contudo, eu não consigo deixar de ser crítico e digo que o roteiro é horroroso. A meu ver, o filme deveria ter dois momentos cruciais: o baile de formatura e o musical final. Praticamente durante toda a reprodução, escuta-se os personagens falando do bendito baile e, pasmem, ele não existe no longa.

O elenco vai de mal à pior. As caras-e-bocas de Zac Efron são insuportáveis e digo o mesmo da voz de Vanessa Hudgens. No entanto, Ashley Tisdale é uma atriz bem bonitinha e vejo um belo futuro para ela. Merecia que sua personagem tivesse sido bem mais desenvolvida; outro erro de roteiro. Sendo bem sincero, digo que toda a nota que o longa conquistou foi pelas impressionantes coreografias. Há muitos anos um musical não me enchia os olhos com danças tão brilhantes como as que temos aqui. E além de as danças serem altamente bem coreografadas, os cenários usados em muitas delas são um deslumbre visual. Alguma canção, sem dúvida, será lembrada nas grandes premiações – acho que o dueto final de Zac e Vanessa, “I Just Wanna be With You”, pode ser uma boa pedida. Concluindo, se não fossem essas cenas estrondosas e a Ashley Tisdale, o filme seria uma bomba.


Nota: 5,0

Título original: High School Musical 3: Senior Year, EUA - 2008
Diretor: Kenny Ortega.
Elenco: Zac Efron, Vanessa Hudgens, Ashley Tisdale, Lucas Grabeel, Corbin Bleu, Monique Coleman, Olesya Rulin.

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Quero aproveitar e falar sobre a Central de Notícias que está situada no fim da página, no lado direito do blog. Hoje (dando uma olhada neste espaço), algo me chamou atenção e vou compartilhar com vocês, pois tem a ver com Efron. Segundo a Variety, o garoto está prestes a assinar um acordo com a Paramount Pictures para interpretar o personagem principal do remake de Footloose. Mais informações? Cheguem até a gloriosa Central de Notícias.