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segunda-feira, 9 de março de 2009

Herói


Se pararmos para pensar, o cinema asiático tem o costume de ser, em sua grande maioria, espetacular visualmente. E não importa o gênero, já que os filmes que se encaixam neste grupo vão desde os mais dramáticos (como Casa Vazia), passando pelo terror (O Hospedeiro) e desembocando em violência pura e aplicada (como na Trilogia da Vingança). Mas é inegável que as fitas que mais nos proporcionam cenas visualmente deslumbrantes são as que colocam as artes marciais em evidência. São vários os materiais que seguem esta pauta, mas três em especial merecem destaque: O Tigre e o Dragão, O Clã das Adagas Voadoras e Herói. Todos são incríveis, entretanto este último, na minha concepção, é um dos grandes filmes desta década; algo que não chegou à perfeição por muito pouco.

Herói nos remete à China ancestral, ainda dividida nos Sete Reinados. O soberano de uma das províncias (vivido por Daoming Chen), se vê constantemente ameaçado uma vez que suas idéias são muito ambiciosas e seu desejo era conquistar toda a China. Três assassinos em especial despertavam mais pavor no soberano – os quais eram contratados por seus adversários políticos: Espada Quebrada (Tony Leung), Neve Que Voa (Maggie Cheung) e Lua (Ziyi Zhang). Um dia, porém, chega à presença do soberano um homem (Jet Li) afirmando ter matado os três assassinos de elite e, como prova, portava as suas armas. Para tanto, ele explicou que só conseguiu tal proeza por ficar uma década estudando a técnica da espada. A revelação foi bombástica e as armas não bastaram para convencer o “rei”; logo, o homem sem nome começa a contar como as mortes se sucederam e a história começa a se desenrolar.

O mais interessante acerca do roteiro de Herói (escrito por Li Feng, Zhang Yimou e Wang Bin), é que o desespero do soberano não é a pauta principal. Temos muita traição, sedução, amor, ódio e crença dentro do texto. Os roteiristas fazem questão de dar importância à vida dos três assassinos e escrachar suas divergências com os reinados e com eles próprios. Acontece que, depois de expor como aniquilou os temidos vilões, o homem sem nome será vítima da segunda revelação bombástica do filme, a qual será dada pelo próprio “rei”. Faz com que o final seja um pouco confuso, mas ainda assim ótimo. O elenco é muito bom e o destaque vai para Jet Li que está bastante inspirado. Agora, o trunfo supremo desta fita é, sem dúvidas, a estarrecedora direção de Zhang Yimou. Todos os seus filmes – além do espetáculo nas últimas Olimpíadas – são poesias em forma de imagens. Utilizando muitas cores e ângulos que até Deus duvida, ele faz com que Herói seja uma obra-prima visual (fez o mesmo com O Clã das Adagas Voadoras, A Maldição da Flor Dourada e O Caminho Para Casa). A fotografia é algo brilhante e não tenho mais palavras para resumir o trabalho de Christopher Doyle neste aspecto (só sei que é uma das coisas mais lindas que vi na minha vida). Direção de arte e figurino também são notáveis e o som, em sua totalidade, é outro quesito inexplicável. É o típico caso de uma película que atende aos prazeres dos olhos, ouvidos e mente. Mesmo o desfecho sendo um pouco estrambólico, este exemplar chinês é fábula de amor, honra e dever e nos faz pensar no que consiste, de fato, ser um herói.


Nota: 9,5


Ying Xiong; CHINA, 2002; DRAMA/AVENTURA; de Zhang Yimou; Com: Jet Li, Tony Leung, Daoming Chen, Maggie Cheung, Ziyi Zhang.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Austrália


Lá em 1992, o diretor australiano Baz Luhrmann inicia sua saga no cinema com o filme Vem Dançar Comigo: tecnicamente lindo, mas em termos de texto, regular. Veio, então, o seu mais ousado trabalho Romeu + Julieta, pois ele nos apresenta, de forma contemporânea, uma das mais belas histórias de amor que existe. O filme? Tecnicamente lindo, mas em termos de texto, regular – mesmo Baz recebendo o adjetivo visionário após filmar o longa. Foi em 2001 que Luhrmann mostra à que veio e presenteia o espectador com um dos mais fantásticos musicais do nosso tempo, Moulin Rouge! – Amor em Vermelho. Além de tecnicamente lindo, o filme é um trunfo em termos de roteiro, elenco e direção. Após ver o trailer do seu novo trabalho, Austrália, realmente achei que viria algo do calibre do musical, mas me desapontei (e olha que o filme não é ruim).

Quatro roteiristas de peso (Stuart Beattie, Baz Luhrmann, Ronald Harwood e Richard Flanagan) se unem para levar às telas uma história que mistura misticismo, amor, guerra, racismo e poder, onde clichês não faltarão. Um pouco antes de a Segunda Grande Guerra mostrar suas primeiras faíscas, uma aristocrata inglesa chamada Sarah Ashley (Nicole Kidman, belíssima) é obrigada a ir à sua fazendo de gado no interior da Austrália para reencontrar o marido, mas ao chegar lá se depara com ele assassinado. Desnorteada, ela deve contar com a ajuda do brutamonte Drover (Hugh Jackman) - algo como um Capataz - que a guiará na luta contra poderosos locais. Conhece também o garotinho aborígene Nullah (Brandon Walters excepcional) o qual foge constantemente do vilão da história Neil Fletcher (o irmão de Boromir, Faramir... quer dizer, David Wenham) que quer aprisionar o menino por um motivo no mínimo interessante e triste. Se eu for me alongar contando tudo o que acontece nas quase três horas de filme, fico o dia todo aqui. Então, digo que o filme gira em torno do auto-descobrimento de Sarah, das lendas incríveis acerca do povo aborígene e coisas do tipo. O roteiro, não vou mentir, é bem previsível, piegas e termina com uma cena muito tocante (sim, eu chorei), mas que no fundo o espectador já espera. O elenco está muito a vontade, principalmente a minha querida Nicole Kidman (quase sem resquícios de botox) que volta às origens, mas não tem o seu melhor trabalho. Hugh Jackman é ótimo como capataz homenzarrão e David Wenham se mostra um “bom maldoso”. Mas quem rouba a cena é o garotinho Brandon Walters e vale lembrar que somos levados o tempo todo pela sua narração.

Apesar de pecar, o texto tem algumas sacadas interessantes – quando na dose certa - que se unem a uma boa direção de Baz. Por várias vezes ele opta por homenagear (ou copiar?) filmes que, por algum motivo, se mostram parecidos com Austrália. Vemos muito de Entre Dois Amores, Cold Mountain, ...E o Vento Levou e, principalmente, O Mágico de Oz. Inclusive, menções a este são quase que constantes e achei isso uma graça! Uma cena, em especial, é embalada por Nicole Kidman entoando um pedacinho de “Over the Rainbow” e outra nos mostra uma cena do filme sendo reproduzida no cinema. Homenagear um filme é legal. Achei um doce mencionarem tanto O Mágico de Oz? Sim, mas tudo tem um limite. Baz me deixou irritado num dado momento quando até a maravilhosa frase “there’s no place like home” é utilizada. A composição musical de David Hirschfelder utiliza um ou dois movimentos inspirados em “Over the Rainbow” e, no geral, a trilha é um estrondo de boa. Em quesitos sonoros, na verdade, a fita é excepcional, principalmente sua mixagem de som. O que mais tem de bom na película do australiano? Visualmente – como já esperamos de Luhrmann – o filme é impressionante. Uma poesia constante para os olhos de meros mortais como nós, já que a fotografia prima pelas espetaculares paisagens da Oceania e a cenografia é, talvez, a melhor coisa do filme. Chegam a ser inaceitáveis as exclusões de Mandy Walker na categoria de Melhor Fotografia e da dupla Ian Grace e Karen Murphy em Melhor Direção de Arte (no Oscar). Uma pessoa aqui e outra acolá, reclamam da também esnobada recebida pelos efeitos visuais da fita, mas eu não a indicaria. São belos efeitos, mas exageradíssimos em vários momentos. Também me sinto na obrigação de mencionar a lindíssima canção “By the Boab Tree” que toca nos créditos (clique aqui para ouvi-la). No fim das contas, o visionário australiano dirige algo sobre a sua terra e faz isso com uma paixão evidente. Mas não precisava criar um filme tão comercial, clichê e piegas. Mesmo assim, digo que assistir Austrália é uma delícia; o típico “épico” que, provavelmente mesmo cheio de problemas estruturais, agradará a muita gente.


Nota: 7,0 (aproveito para informar que modifiquei meu modo de atribuir notas aos filmes. De agora em diante, não daria mais notas tão quebradas; o mais “decimal” que acorrerá é um 0,5).


Australia; EUA, 2008; DRAMA/ROMANCE/AVENTURA; de Baz Luhrmann; Com: Nicole Kidman, Hugh Jackman, Ray Barrett, Bryan Brown, Tony Barry, David Gulpilil, Jacek Koman, David Ngoombujarra, David Wenham, Brandon Walters.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Crepúsculo


O que se espera de um filme que, aparentemente, fala sobre vampiros e outros seres fantásticos? Eu, pelo menos, não esperava nada mais que um amontoado de clichês totalmente desnecessários extraídos de um best-seller cultuado por adolescentes – na maioria dos casos. Entretanto, saí da sessão de Crepúsculo com gostinho de quero mais, louco para saber o que irá acontecer “nos próximos capítulos”. Como não li o livro de Stephenie Meyer, tratei a fita como se fosse embasada num roteiro original e, na verdade, tudo é bem original mesmo.

Isabela Swan (Kristen Stewart) vai morar com seu pai em uma nova cidade, depois que sua mãe decide casar-se novamente. Já no primeiro dia na nova escola vê-se encantada por Edward Cullen (Robert Pattinson), um garoto esquisito aos olhos de todos e que guarda um segredo conhecido apenas por sua família. Não demora muito para Bella e Edward se apaixonarem e, como mandaria o figurino, viverem uma linda história de amor. Mas esta última parte demora a acontecer, pois o segredo dele é algo que poderia colocar a vida da moça em perigo. No fundo, Bella sabe que ele não é normal, e acaba descobrindo que, na verdade, Edward faz parte de um clã de vampiros. A cena em que ela revela saber a verdade sobre ele é dirigida de forma singular pela ótima Catherine Hardwicke: cenas com a câmera em movimentos giratórios e closes no casal. Tudo se encaixa e eles conseguem conviver com as diferenças, até que num jogo de baseball com os Cullen (outra cena maravilhosa em termos visuais), Bella é exposta ao perigo, quando um vampiro sedento por sangue humano, a acha e decide capturá-la custe o que custar. Desta forma, toda a família de Edward se mobiliza para proteger a menina, mas um final interessante está guardado para ela.

Os clichês existem, mas não no que diz respeito ao tema. Eles aparecem, inevitavelmente, nos diálogos inspirados e apaixonados entre o casal, mas tudo dentro da proposta do filme. Ao contrário do que já ouvi, acho o elenco muito bom, com destaque para a talentosa Kristen e Robert, já que a química entre os dois é assustadora. Só queria comentar, ainda acerca do elenco, sobre a presença de Elizabeth Reaser como a mãe de Edward: ela é uma atriz excelente que já mostrou seu talento na série Grey’s Anatomy. Passando para a parte técnica, comentei com algumas pessoas sobre o visual do longa. O tempo todo somos guiados por lugares escuros, chuvosos e nublados, mas a fotografia acompanha cada um destes artifícios e se faz excelente. Óbvio que as majestosas locações (vide a cena do vôo entre as árvores) contribuem também. Alguns nem perceberam, mas a estética nas cenas filmadas na floresta é muito interessante, primando por fumaça (neblina, na verdade), o que denota a nebulosidade da história. Contudo, acredito que o trunfo em termos técnicos seja a composição musical de Carter Buwell: que trilha fenomenal! Sombria, clássica, frenética e romântica, tudo dentro do momento certo. Mesmo com clichês, o filme torna-se totalmente cabível e mesmo com cenas em aberto, fico feliz que temos mais três adaptações pela frente.


Nota: 8,5


Twilight; EUA, 2008; DRAMA/ROMANCE/AVENTURA; de Catherine Hardwicke; Com: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Michael Welch, Justin Chon, Peter Facinelli, Kellan Lutz, Cam Gigandet, Anna Kendrick.